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“We’re all living in America” (Narrativa do viagante)

Ricardo Meireles | C15

Cisco

San Jose | USA

 

 

Quando as coisas correm bem, os acontecimentos sucedem-se de forma mais rápida. Depois de tomar conhecimento da empresa, país e cidade de destino, foi num ápice que me encontrei em São Francisco, Califórnia. Uma vez que o meu destino se trata de um país onde o conceito de livre circulação de bens e pessoas é um pouco diferente do nosso (Portugal/Europa) tive inevitavelmente de preencher todos os requisitos para poder entrar legalmente nos USA. Depois de umas viagens à capital e uns ingressos preenchidos, estava tudo resolvido.

 

«USA here I go». A entrada num país como os Estados Unidos tem de respeitar um certo número de protocolos, onde as pessoas parecem ser tratadas como mercadoria, mas talvez isto seja necessário em nome da segurança e da eficácia.

 

Apesar de o destino ser San Francisco, cidade ligada aos movimentos de emancipação, não me fiquei por aqui, embora os primeiros dias tenham sido passados nesta cidade de enorme riqueza cultural e à qual naturalmente regressaria inúmeras vezes.

 

Mas, afinal, eu vim para a América com o objectivo número um de trabalhar, e é aí que surge San José, a auto-intitulada Capital do «Sillicon Valley». Inserida dentro do Vale do Silício San José, é uma cidade de dimensões superiores a San Francisco, e com grandes comunidades, Mexicana, Asiática, Portuguesa, entre outras. “Os portugueses estão em todos os cantos do mundo”, é verdade. Também aqui nesta Cidade do «far West» existe uma grande comunidade de Portugueses, maioritariamente concentrados na Little Portugal, onde se podem encontrar serviços, restaurantes e comércios ligados a Portugal. E quem é fã de futebol pode sempre assistir aos jogos em associações ligadas aos dois maiores clubes da capital.

 

Uma cidade plana, com arredores a perder de vista e serpenteada por gigantescas auto-estradas que ligam as grandes cidades da Costa do Pacífico. Mas, chega de falar de San José, falemos agora do estado Dourado, a Califórnia.

 

O nome do estado vem da novela Las sergas de Espladián (As aventuras de Espladián), do século XVI, a qual foi escrita pelo espanhol Garci Rodríguez de Montalvo.

Posso orgulhar-me de ter visitado espaços naturais lindíssimos: Yosemite, parque nacional delimitado por muralhas de granito de uma altura descomunal, coberto de sequóias milenares, assim como um cem número de espaços protegidos onde é possível apreciar a natureza no seu estado mais primitivo E as grandes cidades como San Francisco, Los Angeles ou San Diego.

 

Se a Califórnia fosse um país seria, a par de Portugal, um dos mais belos do mundo e, ao contrário do nosso país, uma das mais poderosas economias do planeta.

 

Tive também oportunidade de visitar outros estados, e pelo que pude verificar em conversas com outras pessoas, a Califórnia é um estado à parte, devido às suas riquezas naturais e à diversidade cultural que encerra em si mesmo este estado. Além disto, a Califórnia é facilmente reconhecida pela qualidade das suas Universidades e pelas indústrias do entretenimento e tecnológica Quanto aos USA, “We’re all living in America”

 

 

L´Étranger (Narrativa do viajante)

Nona Panayotova | C15

Parque Expo

Belgrado | Sérvia

 

 

 

“Aujourd´hui maman est mort.” Foi o L´Étranger, de Albert Camus que me acompanhou na viagem de Lisboa para Argel. Curiosamente leio-o em Belgrado. As primeiras palavras que me ocorreram para descrever Argel foram orgânico e geração espontânea. Reina o caos na cidade, a poluição, um ar pesado e carregado. Andamos nas ruas e há uma gradação de paisagens, tudo se mistura e funde. Passamos da arquitectura de Paris, às Ramblas em Barcelona. Ao Raval. Mas também poderíamos estar em Itália. Ao mesmo tempo que o cheiro a Kebab nos faz lembrar a Turquia, o comércio recorda-nos Marrocos. E assim saltitamos nas nossas memórias e mergulhamos numa mistura de sensações. É Curioso como nós criamos a nossa própria realidade, criamos uma bolha à nossa volta e o nosso mundo. Não posso dizer que sinta falta dos altos muros de arame farpado e da vida que mudava ao sair das quatro paredes do nosso bureau na Rue Victor Hugo. Dentro de certos espaços, éramos de facto livres, mas a liberdade não é para além do infinito? Ficou um sonho por concretizar, ir ao deserto.

Não é o Miguel Sousa Tavares que diz que todos deviam ir ao deserto antes de morrerem? Porque, muitas vezes, para nos encontrarmos temos que nos perder primeiro. Quando finalmente ia começar as minhas aulas de yoga e entrar na minha vida argelina foi tempo de partir.

 

Após alguns dias, quando aterrei de verdade em Beo, tive consciência desta nova realidade, tão distante e tão diferente de tudo o que vi, vivi e senti na Argélia. Parecia que já me tinha esquecido de como era a vida na Europa, o que significava ter uma dita vida normal. De repente, os meus olhos enchiam-se de esplanadas cheias de mulheres, homens e crianças, de manhã à noite. Fervilha vida nesta cidade. Ando pelas ruas sentindo e vivendo esta nova realidade. Este novo mundo de descobertas. São as pessoas que fazem as cidades e não o contrário. Esta manhã, em Belgrado, sentada no trolley a caminho de mais um dia de trabalho, observo a paisagem através da janela. Quando me sentei, pensei: “Esta viagem está quase a terminar. Não há mais nada para ver”. Contudo sei que não é assim. “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.” José Saramago. Abrem-se as portas. Saio na minha paragem. 

Squinty Eyes (Narrativa do viajante)

Sara Cristina Faria Geraz | C15

J. T. Barbosa Vinhos, Lda

Shangai | China

 

Estamos em Shanghai. Eleita recentemente a cidade mais populosa do mundo, não há maneira possível de eu conseguir expressar em palavras ou fotografias estes últimos 6 meses. Acredito piamente que é preciso experienciar, observar, ouvir, sentir, absorver para perceber…

 

Esta narrativa do viajante é por isso, desde já, um desastre anunciado.

 

Dia 25 de Janeiro de 2011 aterrei nesta alucinante metrópole, atordoada e exausta, inevitavelmente lutando contra um doloroso jet lag, porém já histérica e deslumbrada com tudo que me rodeava. Estava no outro lado do mundo. E não podia ser mais diferente. Aproximava-se o Ano Novo Chinês e a sua iminência tornava a confusão nas ruas mais grave do que o usual. Os prédios altos enchiam-me a vista, a azáfama das ruas, simultaneamente tão fascinante e cansativa, confundia-me.

 

Quando se ouve falar da China, muitos estereótipos nos saltam imediatamente à mente, desde os hábitos alimentares aos padrões de higiene muita coisa se diz. Vim a confirmar que a maior parte são realmente verdade e não me vou alongar a descrever pormenores.

 

O choque cultural já tinha sido esforçadamente salientado, de maneira que não me deixei abalar. Decidi antes saltar da minha zona de conforto, esquecer o meu pequenino mundo ocidental e abrir a mente para receber tudo que este país me poderia ensinar. Aprendi a apreciar a diferença, a enriquecer o espírito com ela. Aprendi que nem sempre precisamos de falar a mesma língua para conquistar um sorriso ou para nos enamorarmos de algo. Joguei badmington com uma criança desconhecida, ri-me com eles sem os perceber, dancei com um idoso na rua, preocupei-me pouco em entender, concentrei-me antes em deleitar-me e aspirar o mundo que me rodeava.

 

Descobri um povo generoso, harmonioso e feliz, apesar das dificuldades ou restrições de liberdade impostas. Ideias pré-concebidas e preconceitos de nada servem para um entendimento puro desta sociedade tão profundamente diferente. Nem sempre foi fácil, é verdade, sou uma homesick por natureza e tive as minhas fragilidades… Mas, o balanço é sinceramente positivo. Às pessoas que toquei e me tocaram de alguma forma, um sincero obrigada, por enriquecerem esta deambulante alma viajante...  

Da água para o vinho (Narrativa do viajante)
Miguel Magalhães | Odebrecht Services GmbH | Viena | Austria

Miguel Vasconcelos Magalhães | C15

Odebrecht Services GmbH

Viena | Autria

 

Depois de uma curta noite de sono entramos finalmente nas últimas horas de formação. Três dias de ansiedade crescente num auditório que marcaria profundamente, para todos e cada um de nós, os meses que se seguiriam. Chegava o grande momento de finalmente sabermos quais os destinos que nos estavam reservados. Um ecrã, centenas de pessoas, dezenas de destinos; um auditório cheio e, no ar, uma expectativa electrizante. Depois de uma sessão emocionalmente intensa todos ficaríamos a saber qual o próximo “sítio” das nossas vidas.

 

No rescaldo, alguns choros, muitos sorrisos, gente alegre e outros ainda a procurarem fazer as pazes com a sua sorte. Uma coisa era certa, no mês que aí vinha todos estaríamos bem longe daquele auditório: uma vida nova, à partida…

 

Ao chegar ao destino, o árabe falado nos corredores traz-me à memória uma viagem que fiz por Marrocos. O meu chefe à espera no aeroporto, preparado para me levar directo ao escritório. Comigo, o pesado processo de um concurso que entregaríamos em dois dias. Corremos a via rápida que ligava o aeroporto à cidade num “ziguezaguear” constante. As faixas marcadas no pavimento funcionavam como uma grelha que emprestava escala ao fluido movimento dos veículos. As três faixas originais davam ocasionalmente lugar a quatro, cinco ou seis carros a rodar em paralelo numa normalidade completamente enraizada. O que à partida parecia o caos funcionava perfeitamente de acordo com as leis da física: enquanto houver espaço, passa-se. A princípio estranhei, mas passados os dois primeiros sustos tranquilizei-me. Para lá do caos havia um sistema: o funcionamento era orgânico!

Durante aproximadamente um mês, constatei que o “sistema orgânico” que havia descoberto no trânsito se reflectia nos mais diversos sectores da sociedade. À partida, encontrava-me num país bem diferente, mas sempre que pensava um pouco mais sobre o assunto, era como se me lembrasse do Portugal de há 20 anos atrás, mas mais intenso. Diferente nos hábitos, diferente nos costumes, toda a gente a falar árabe à minha volta. Mulheres completamente cobertas na rua e jamais desacompanhadas (pois pode parecer mal), cinco vezes ao dia o Imã nos altifalantes a inundar as ruas com o chamar para a reza, um estado de emergência imposto, com dezenas de barreiras policiais espalhadas pela cidade concretizando a face mais imediatamente visível do estado autoritário.

Foi assim que tive o privilégio de me encontrar num dos países onde parecia que ia chegar a Primavera Árabe. Para dizer a verdade, várias vezes me vi envolvido em conversas profundas sobre política e sobre o sistema; sobre a figura central do regime, o presidente Abdelaziz Bouteflika, figura chave na cena política recente, em grande parte responsável por trazer alguma estabilidade a um país que estava mergulhado numa violenta guerra civil. A bem dizer, nunca me senti em perigo, embora tenha seguido o conselho da embaixada de Portugal de não sair de casa nos dias de manifestações marcadas (mais vale prevenir que remediar).

 

Ao fim de um mês recebo um telefonema. Era uma quinta-feira como outra qualquer. Do outro lado da linha a minha coordenadora de estágio informa-me que teremos de sair do país. Estava decidido e que iríamos ser recolocados noutro mercado. A AICEP já tinha tido de evacuar outros estagiários de países como a Líbia e o Egipto e, ao que parecia, não o queria ter de fazer novamente. Apanhado de surpresa ainda procurei saber se teríamos opção, mas o meu destino já estava traçado.

 

Em menos de uma semana troquei a Argélia pela Áustria. Da água para o vinho com Portugal no meio-termo. Chegado a Viena, depois de uma experiência tão intensa em Argel onde até o simples apanhar do autocarro constituía uma verdadeira aventura, senti-me imediatamente em casa: estava de volta à Europa familiar. A grande diferença é que aqui tudo funcionava. Aqui, volto a conseguir sair de casa pela manhã e saber quanto tempo levo até ao trabalho…

 

Cabo Verde é sabi (Narrativa do viajante)

Sara Madureira | C15

Focus Group CV

Cidade da Praia | Cabo Verde

 

 “Morabeza” é uma palavra que só existe em Cabo Verde e expressa com precisão a forma como o país e o seu povo acolhem os visitantes. Não tem tradução mas é possível senti-la através “da gentileza, da hospitalidade, da amabilidade e da delicadeza” dos Cabo-verdianos que, num primeiro impacto, até pode gerar alguma desconfiança mas que, após o período de adaptação, até os mais cépticos se rendem a esta manifestação sincera e humilde.

O bom clima, a proximidade do mar, a cidade pequena e sem trânsito, a tranquilidade do povo e do quotidiano foram as grandes razões que me fizeram antever uma agradável estada de seis meses. A expectativa confirmou-se totalmente, é surpreendente e gratificante a qualidade de vida que este país proporciona.

Com o passar do tempo, vamos tomando consciência das grandes dificuldades. O facto de se tratar de uma ilha onde raramente chove e onde, por consequência, grande parte dos produtos é importada, conduz-nos a preços elevados e a longos e repetidos períodos de carência de bens essenciais como água, electricidade e alguns produtos alimentares. Mas, o que faz deste povo um povo especial e um exemplo para um europeu citadino, que raramente sente falta de bens essenciais e que, muitas vezes se deixa seduzir pela oferta de bens supérfluos, é a boa disposição, optimismo e o espírito de solidariedade com que ultrapassa as adversidades.

O que também não se mostrou fácil foi a sensação de estar confinada a 900 km2 de terra. Esta dificuldade foi atenuada com a possibilidade de visitar algumas de outras das dez ilhas que constituem este arquipélago e que nos faz descobrir a diversidade em Cabo Verde, que não tem só praias paradisíacas mas também montanhas com vegetação, paisagens mais áridas e vulcões.

A ligação a Portugal é gritante e manifesta-se por todo o lado e por todo o arquipélago. Na língua oficial, nos edifícios e monumentos, nos canais de televisão, nos restaurantes e na grande comunidade portuguesa presente neste país. Todo este predomínio da presença nacional acaba por amenizar a distância e a sensação de ser emigrante fazendo-nos, por momentos, sentir em casa.

Contudo, apesar da forte influência portuguesa, os cabo-verdianos são donos de uma fértil e rica cultura própria, onde a música tem o seu expoente máximo e que tanto orgulha o seu povo. É incrível como numa população de 500 mil habitantes existem tantos cantores e tão boa música, que a todos alegra e anima da manhã à noite.

Na recta final desta estada, estou certa de que todas as dificuldades que tive de ultrapassar no dia-a-dia e o contacto com este povo me modificou. Tornou-me mais tolerante, consciencializou-me para a importância de bens tão essenciais como a água e a electricidade e para o absurdo do consumismo desenfreado da sociedade ocidental. Mostrou-me que mesmo sem as melhores condições de vida, poucas oportunidades e muitas carências, é possível viver uma invejável felicidade. 

"É nóis no Brasiu!" (Narrativa do viajante)

Soraia Bau | C15

Consugal

São Paulo/Suzano | Brasil

 

Inesperadamente, vim parar ao Brasil. Não tenho tendência para criar grandes expectativas mas, qualquer pessoa que pensa em Brasil, pensa em praias paradisíacas, calor, coqueiros, etc.

Mas, o Brasil é mais que isso. É um país carregado de diferentes realidades e é isso que o faz ser diferente e tão apetecível.

Podia falar da cultura brasileira, das praias, do samba e do carnaval mas isso já todos nós conhecemos ou já temos uma ideia, vivida e/ou assistida de alguma forma. Gostava antes, de falar sobre a minha visão de um país que podia ser multiplicado em mais de 10 pequenos países, devido à singularidade de cada lugar. Não dá para falar no Brasil como um todo porque cada estado, cada cidade é distinta da outra. Cada estado tem influências e reminiscências de várias culturas, o que torna o Brasil num país diversificado étnica e culturalmente.

Eu tive, e estou a ter, a oportunidade de viver e conhecer o Brasil de diferentes perspectivas, em existências singulares.

O Brasil tem grandes cidades como São Paulo. São Paulo é uma metrópole que, como eles dizem, é a Nova Iorque do Brasil. Vivi São Paulo e, inicialmente, foi confuso. Mas, é uma cidade cheia de vida e onde está sempre tudo a acontecer. Por outro lado, e contrastando com as grandes metrópoles, o Brasil tem as cidades do interior… Apesar de serem tudo menos sítios de sonho, posso dizer que tive o privilégio de viver esta vertente do Brasil. Trabalhava numa cidade industrial e vivia numa cidade universitária, no estado de São Paulo. Realidades bem diferentes e questionáveis.

Desde paredes inteiras de casas pintadas com publicidade evasiva, morros invadidos diariamente através de construções ilegais, casas construídas num dia, a cru, contrastando com a construção crescente de “bolhas elitistas” dentro da mesma cidade, a extrema falta de infra-estruturas num país com tardio desenvolvimento e em crescimento abrupto, até lugares paradisíacos que respiram tranquilidade e simplicidade. O Brasil tem esta falta de equilíbrio entre o bom e o mau, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o caótico e o pacífico, o desenvolvido e o primitivo, que pode por vezes ser revoltante, mas é o que o torna tão característico e cativante.

Para além disso, um dos factores mais importantes ao falar de um lugar, ou de vários lugares são as pessoas. São elas que acabam por tornar esses lugares genuínos e incomparáveis. É irrefutável que o povo brasileiro é caloroso, prestável e, essencialmente, feliz. O que torna o Brasil ainda mais aprazível. Tive a sorte de conhecer pessoas incríveis, nativos e portugueses, e bastava isso para fazer com que a minha experiência aqui valesse a pena.

O Brasil é um país apaixonante e é impossível não querer ficar ou, pelo menos, não querer cá voltar.

Esta é a minha visão sobre este “mundo” de contrastes e oportunidades… Deram-me esta difícil tarefa de passar para texto a minha experiência por aqui mas, tal como acontece com todas as outras experiências no estrangeiro, que tive, considero-a intransmissível.

Finalmente, como dizemos por aqui… "É nóis no Brasiu!"   

Singapura, a Disneyland da Ásia (Narrativa do Viajante)

 

Vitor Manuel Freitas Ferreira | C15

AICEP Singapura - Business Development Agency

Singapura

 

 

Singapura, remete o Normal Europeu para 4 ideias:

- Crescimento Económico e Prosperidade;

- Sociedade Altamente Desenvolvida e Tecnológica;

- Regras e Leis extremamente rígidas;

- Uma enorme incapacidade na preparação de caipirinhas.

Ok esta última talvez seja mais pessoal. No entanto as quatro confirmam-se.

A Ilha do Futuro tem pouco mais de 5 milhões de habitantes, entre os quais se contam mais de 1 milhão de estrangeiros. Os nativos são maioritariamente de ascendência Chinesa (74%), Malaios (13%), Indianos (9%) e Outros (4%).

Religiosamente, o país também apresenta uma estrutura diversificada, realçando a vertente laica do Estado, Budistas (42,5%), Muçulmanos (14,9%), Sem Religião (14,8%), Cristãos (14,6%), Taoismo (8,5%), Hindu (4%), Outros (0,7%).

Num passeio por Singapura, em 10 minutos passamos por uma mesquita, depois uma igreja cristã, seguida de um templo Budista, um País laico por natureza e em que todos vivem em harmonia.

Toda esta diversidade racial e religiosa faz com que o choque cultural em Singapura seja equiparado a meter os dedos molhados numa tomada que, diga-se de passagem, é também aqui diferente, possuindo entradas trifásicas.

Esta enorme mistura racial leva a que na rua, no metro, ou num restaurante, e apesar da língua oficial ser o Inglês, estejamos constantemente a ouvir Mandarim, Cantonês, Bahasa, Tâmil ou qualquer outra língua que, aos nossos ouvidos, parece uma mistura da Simone de Oliveira a cantar a Desfolhada, com a informação sobre o trânsito e alguma estática. Isto porque os Singapurenses, entre eles, falam nos seus idiomas nativos. A língua inglesa é falada por 100% da população e no dia-a-dia profissional não encontrámos dificuldades.

No entanto, alguém que, como eu, NÃO pertence aos 10% da população que é milionária e não se pode dar ao luxo de viver nas zonas mais requintadas da cidade, tem o prazer de socializar com a camada mais pobre (1) e, por regra, mais idosa da sociedade. Neste extracto da sociedade fala-se, o Singlish, a mistura do Inglês com Chinês, que está para o Inglês na mesma medida em que o Mirandês está para o Português,e por vezes não é fácil acompanhar. A utilização de “Lah” como vírgula ou ponto final, e o can e cannot, são o mínimo dos problemas, a pronúncia com a cantiga do Mandarim, essa sim, pode levar-nos ao desespero Lah e cá!

(1) Por pobre entenda-se alguém que vive de uma forma mais humilde, sem abrigo e mendigos é algo que não vão encontrar aqui.

A população não é desprovida de criatividade e capacidade de improviso, mas tem esses ingredientes na mesma quantidade que uma mousse de chocolate tem pimenta. Essa não é minimamente estimulada pelo Sistema.

Os Singapurenses são completos seguidores, desde a escola, até ao mercado de trabalho, são perfeitos no cumprimento de ordens, organização e na execução de tarefas estabelecidas, qualquer coisa que fuja ao que foi definido anteriormente causa-lhes normalmente um curto-circuito. Podemos experimentar isso num restaurante, se pedirmos para dividir a conta por 3 pessoas, ou se pedirmos para mudar uma mesa de lugar. O pânico instala-se rapidamente com pedidos deste género e, por vezes, só a intervenção pronta do gerente ou de outros clientes consegue acalmar os restantes funcionários. Ora isto pode-se tornar bastante divertido e viciante para quem procura um pouco de animação na sua vida.

Esta característica da população explica-se pelo ambiente “protegido” em que se vive. A economia é totalmente aberta e com fantásticos resultados, no entanto politicamente e no que concerne à liberdade pessoal, levantam-se algumas questões: Um quinto da população são expatriados mas o acesso à informação do exterior é, de certa forma, limitado pelo Governo, que controla os jornais e a TV, aplica algumas restrições no acesso à Internet, proíbe a comercialização e consumo de pastilhas elásticas, proíbe fumar mesmo em espaços exteriores e nas ruas a 5 metros de qualquer porta, multa os pais cujos filhos chegam atrasados às aulas, pune crimes como o furto com chicotadas, tem pena de morte para tráfico de droga, obriga a medir a temperatura antes de entrar em certos edifícios e barra a entrada se tivermos mais de 38ºC, declara multas para quem beba água no metro ou passe a fronteira para a Malásia de automóvel e não tenha pelo menos 3/4 do depósito de gasolina cheio. Aqui, para obter um visto de trabalho fazem testes médicos e ser seropositivo é automaticamente impeditivo da entrada no país e o voto é universal e obrigatório, mas não é secreto.

Todas estas medidas (com algumas das quais estou de acordo, outras não), nos fazem pensar que noutro tipo de situação seriam altamente criticadas, quer pela população, quer pela Comunidade Internacional.

No entanto, Singapura mantém-se governada pelo mesmo partido político desde a sua Independência há 50 anos, sendo a alternância no poder inexistente. Mas, o certo é que a sociedade funciona, e mesmo com estes condicionalismos, penso que todos admitem que Singapura é hoje um centro financeiro e tecnológico de excelência e que os Singapurenses, na sua esmagadora maioria, têm condições de vida superiores a quase todos os outros países do Mundo. Muitos dizem que trocam alguma da sua liberdade pessoal pela liberdade económica, mas reconhecem também o aparente milagre que foi há 50 anos ser uma ilha que não passava de um pântano, sem qualquer recurso natural, e que é hoje o El Dorado da Ásia.

Singapura pode também ser descrita como Manhattan nos trópicos. (Relembrando que a Ilha está mais próxima do Equador do que Lisboa do Santuário de Fátima.) O estilo arquitectónico é moderno, construção em altura, avenidas largas e comparando com uma 5th Avenue, por exemplo, temos uma proporcionalidade inversa entre palmeiras e trânsito. Singapura compensa a ausência de um trânsito caótico com a plantação de plantas exóticas em avenidas deste estilo.

O Marina Bay Sands é um ponto de visita obrigatório. Transformou-se no símbolo da Prosperidade de Singapura, com mais de 2500 quartos e a piscina situada à maior altitude do Mundo e fica localizado a umas centenas de metros da maior Roda Gigante do Mundo, por isso percebem de que tipo de envergadura falámos nesta cidade. É destes títulos que os Asiáticos gostam, o maior Porto do Mundo, o maior Aeroporto do Mundo, etc. A disputa com a Malásia e Hong Kong por troféus deste género costuma ser intensa.

É uma sociedade completamente orientada para o consumo, não faltam Shoppings, Restaurantes, Bares, até os 2 Casinos existentes vão este ano arrecadar mais receita que Las Vegas. Aliás, Singapura é já o 2º maior destino de “jogo” a seguir a Macau.

Existem todo o tipo de opções para diversão, desde Skybares, Desportos Radicais,Teatros, até aos Universal Studios.

É um país que, à primeira vista, parece perfeito, mas a perfeição não é natural, é isso que notámos. Mais que perfeita, Singapura é artificial, desde a praia que foi construída com areia comprada aos países vizinhos, até aos hologramas que tratam do atendimento em estabelecimentos comerciais. Não deixa de ser, no entanto, um oásis no Mundo de hoje em dia, super seguro,  um país onde encontrámos uma qualidade de vida difícil de igualar, com um clima fantástico e que podemos de certa forma descrever como a Disneyland da Ásia. Façamos de conta de que o Paraíso existe e é aqui…

Sabores de Cabo Verde (Narrativa do Viajante)

Vasco Fael Cavalheiro | C15

Alidata

Mindelo | Cabo Verde

 

Deixo as minhas origens lusitanas e  4 horas depois  começa uma história que, por algum tempo, me fez fervilhar a pulsação: o desconhecimento do destino que, solitário, me levaria a ser feliz!

Logo após a chegada um recebimento caloroso, o “bafo” quente de terras de outrora que deixa para trás dias de intenso frio nacional, um cheiro e cores diferentes, as montanhas que me abraçavam neste território de gente simpática e calorosa que, de sorriso humilde, simples e sincero, não transmite a dificuldade que muitas vezes os persegue.

Todos estes dias que dificilmente conseguirei traduzir por estas palavras, foram dias de ensino de vida, muitas amizades criadas, expectativas que superaram qualquer ideia inicial acerca deste território.

Os funanás, as mornas, coladeiras e kizombas levam-nos a um clima de tranquilidade e amizade que, com certeza, irá deixar saudade e, sem exigência ou obrigação, me fará um dia regressar. Refiro-me também ao azul cintilante dos mares que invade o rochedo negro destas montanhas, as crateras de onde outrora brotaram lavas correntes, o verde de natureza simples e única.

São 10 diferentes paisagens, 10 ilhas que, conjuntamente, formam um país. Contrariamente à minha vontade e tendo em conta o vínculo profissional, não consegui deixar a minha pegada em todas elas, cada uma com deslumbramentos distintos, cada uma com suas tradições em que, sempre que aterramos, sentimos que mudamos de país ao mudar bruscamente o cenário paisagístico. Facilmente revertemos essa ideia, as pessoas estão lá, os sons estão lá, a tradicional comida está lá. Ok, mudou o cenário mas tenho a certeza de que continuo em Cabo Verde.

Por falar em comida, ainda não vos falei desses petiscos, as cachupas, o polvo grelhado, o bife de atum, guisado de búzio, a moreia frita, enfim de crescer água na boca, embora um pouco diferentes sentimos um pouquinho de Portugal nestas refeições, mas atenção nem tudo são rosas. Todo o cuidado é pouco e um descuido indesejado e lá vêm uns diazitos mal passados.

Vou-vos contar da meteorologia. Alguém pensou em chuva? Pois bem: eu pensei e digo-vos tenho saudades, muitas saudades, secura extrema, água do céu - nem vê-la, sol radiante e temperatura amena, avistam-se nuvens bem carregadas ao fundo, passam por nós, mas nem uma gotinha do precioso líquido. Ditam as histórias por cá que, mais uns meses adiante, se fará sentir em força.

No campo laboral a história complica-se um pouco mais, o ritmo é menos acelerado (bastante até), a compreensão verbal torna-se difícil muitas das vezes, não fosse o crioulo a língua mais desejada no diálogo cabo-verdiano. Mas, toda a boa vontade e disponibilidade deste povo acaba por compensar o estado de falta de paciência que por vezes nos atinge e acreditem que no desenrolar desta experiência acabamos por aprender a lidar.

Com o aproximar do final desta aventura começa a existir um misto de saudade das nossas origens mas, no fundo, deixamos também uma parte de nós enraizada neste lindo cantinho que com tanta “Morabeza” nos recebeu! Vou ter saudades, sim, e voltarei com certeza!  

A China Light de que aprendi a gostar (Narrativa do Viajante), por Paulo Braz
A China Light de que aprendi a gostar

C15 |Paulo Braz

Falua Sociedade de Vinhos, S.A.

China |Macau

 

Queria China. Tive China.

Pelo menos até visitar a minha empresa em Estremoz e perceber que afinal era em Macau e não em Zhongshan que iria ficar colocado. Macau não é, pelos padrões de entendimento do Português comum, China.

Cheguei exactamente no Ano Novo Chinês entre Lai Sis e Kung Hei Fat Chois. Está tudo na rua e ninguém trabalha durante dias. Os dragões  serpenteiam das Ruínas de São Paulo até ao Leal Senado levando tudo na frente. Deitam-se coisas fora e compram-se novas. Roupas, mobílias, carros. Visitam-se os templos e acendem-se incensos. Muitos incensos. Panchões rebentam nas ruas a cada segundo num barulho ensurdecedor. Dançam os Leões. Vêem-se coelhos em todo o lado que vão substituir os tigres que fizeram o ano anterior.

Não há melhor altura para chegar a Macau.

Passada a loucura das cores e dos sons começo a olhar à volta com mais calma. Os panchões ainda continuam a rebentar a cada bocado. Passado umas semanas os intervalos já são maiores.

Começo então a perceber que afinal tudo é diferente. É verdade que a influência portuguesa continua cá, para além da calçada portuguesa e dos sinais fracamente traduzidos do abundante comércio de rua (fracamente é, na melhor hipótese, um eufemismo), mas Macau é China. “China Light” se quiserem, mas China.

Os casinos dominam não só o skyline como Macau inteiro. Macau trabalha no casino, janta no casino, e sai à noite no casino. Passem às três da manhã numa mesa de Bacarat e estará alguém a jogar. Numa Slot Machine, uma senhora com uma idade avançada passa a sua tarde de Sábado a carregar num botão enquanto a máquina, ávida, vai recebendo dólares de Hong Kong. As mesas de Sic Bo enchem-se de gente que vai passando notas de mil ao croupier que, em troca, entrega quatro fichas verdes. Essas fichas vão para um quadrado que, dependendo dos dados, pode significar um sorriso ou outra nota de mil a sair da carteira.

Aprendemos a fugir aos casinos. Afinal, as ruas de Macau são bem melhores. A comida sabe melhor. Rapidamente percebo que é naquele restaurante com um dono simpático, com sorriso e olhos rasgados, azulejos que já foram brancos, tapetes que já foram tapetes e casas de banho que nunca o chegaram a ser, que vou comer a melhor comida de Macau.

Habituo-me rapidamente e adoro cada bocado.

Depois olho para o mapa. Estou no Sudoeste Asiático, não estou? Para onde posso ir? Tailândia, Laos, Cambodja, Filipinas, Indonésia... Ah, a China! É isso! Já me esquecia desse pequeno país.

Andar de barco entre os montes cársicos de Yangshuo. Visitar jardins, arranha-céus e edifícios geniais em Shanghai. Comer em Cantão e relaxar em Zhuhai. Estar em Hong Kong três vezes numa semana porque o trabalho o exige.

Sim, o trabalho. Também isso é bom. Tive sorte, muito mais do que julguei nos meus primeiros dias em Macau.

Agora vamos ver. Ouço falar no “vim para Macau por seis meses e estou cá há cinco, dez, vinte anos”. Não sei como será comigo. Macau já me convenceu a ficar mais uns meses. Será só por uns meses? 

See more, be more... (Narrativa do viajante)
 
 

Susana Brito|C15

Niepoort

São Francisco|EUA

 

Este é o slogan de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Ver mais para ser mais tornou-se o meu lema de vida no ano passado quando tive a felicidade de poder fazer um curso intensivo de Inglês em Nova Iorque. Tive a certeza de que trabalhar no estrangeiro seria sem dúvida a minha vida, daí em diante. Trabalhar no estrangeiro traz muitos benefícios: uma verdadeira mudança de ambiente, novos horizontes pessoais, um contacto diário com outra cultura, uma oportunidade ideal para aprender uma nova língua ou aprofundar o seu conhecimento, a possibilidade de trabalhar com pessoas de diversas origens, de trocar ideias e comparar experiências.

 

O Inov Contacto deu-me essa oportunidade. São Francisco e era uma vez o sonho americano (American Dream), era uma vez a terra das oportunidades, era uma vez a lenda “rags to riches”… Esta lenda principiou com três grandes senhores americanos: Ben Franklin, Abraham Lincoln e Horation Alger. Com diferenças peculiares, ensinaram às gerações americanas que o caminho para o sucesso financeiro e a mobilidade social consegue-se com trabalho duro, frugalidade e auto-sacrifício. Ben Franklin um dos mais influentes fundadores dos Estados Unidos, aconselhou a indústria como caminho para a riqueza. Abraham Lincoln, 16º Presidente dos Estados Unidos, glorificou o sistema de trabalho do norte, através do trabalho livre, crescimento do mercado interno e estabelecimento de barreiras proteccionistas. Horatio Alger prolífico autor americano do século XIX, instilou a esperança nas gerações americanas, com o seu livro “From rags to riches” (Dos trapos à riqueza), concretamente quer isto dizer que em qualquer situação uma pessoa pode passar da pobreza à riqueza. (By Matthew Warshaeur) A esperança foi passada às pessoas de todo o mundo e a lenda ainda está presente na mente de todos. Aliada a uma história contemporânea, relativamente jovem quando comparada com a história da europa, nos EUA consegue-se respirar a criação do novo, tudo aqui é cool state of mind. Costumo dizer que é uma cultura easy going e open mind, há muita facilidade na comunicação, expressão, acção, produção e concretização. É isto que todos os países precisam: agilizar e estreitar relações. A constituição eterna de liberdade e prosperidade no pensar dos americanos consente-lhes ainda nos dias de hoje o primeiro lugar no topo de todas as economias mundiais, este facto atrai milhares de imigrantes de todo o mundo para o seu mercado de trabalho. Li uma frase bastante interessante “Every person is a new door to a different world” (Cada pessoa é uma porta para um mundo diferente). Isto atribui a cada um de nós a esperança de poder conhecer vários mundos. Na minha opinião, são de facto as pessoas que fazem e constituem os lugares.

 

Viver nos EUA permitiu-me comprovar isto. A diversidade cultural, a contínua busca de novas oportunidades e o espírito eterno de liberdade constitui a identidade norte americana.

 

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