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Voluntariado na Agentina (contributo espontâneo de Filipa Manzoni)

1.

 

“Bien Venida a Mendoza”.

 

Parece que foi ontem em que o meu nome apareceu naquele ecrã gigante, com o destino Argentina – Finca Flichman, Sogrape.

Fiquei numa excitação, tanto pelo destino como pelo privilégio de trabalhar para a Sogrape. Mas entrei em pânico ao saber que para a Argentina apenas iam dois estagiários (quando para o Brasil iriam cerca de 50). Pesquisei rapidamente no google, a que cidade poderia estar a Sogrape associada, e vi que tinha sede em Buenos Aires. Fiquei mais calma, pois em Buenos Aires tinha alguns contactos. Uns dias depois, comunicaram-me a cidade de destino: Mendoza. Fiquei sem palabras. Nunca tinha ouvido sequer falar desta cidade e, ainda por cima, iria sozinha. E aí começou a aventura…

 

Saí de Lisboa, em pleno Inverno e, após 24 horas em viagem, aterrei no aeroporto de Mendoza, em que estavam uns 40°C e um sol abrasador! Carregada de malas, casacos, mochila, cheia de calor, procurei o meu nome em alguns dos cartazes que esperavam os passageiros, e lá tinha o motorista da minha empresa à minha espera que calorosamente me disse: “Hola Filipa! Bienvenida a Mendoza!”.

 

Assim, fui muito bem acolhida na cidade de Mendoza, as pessoas são extremamente simpáticas, sempre prontas a ajudar. O que mais me custou foi arranjar casa, por serem muito velhas, ou com poucas condições básicas. Mas afastei-me do microcentro da cidade, e encontrei um apartamento óptimo com pessoas de outras nacionalidades. Vivi com uma chilena, duas francesas, um holandês, uma americana, uma mexicana e uma argentina. Uma óptima escolha!

 

Mendoza localiza-se no oeste do país, nas bordas dos Andes, e é um importante pólo de produção de vinho e azeite. O centro da cidade possui muitas árvores, regadas por canais pequenos, que funcionam junto a muitas ruas, proporcionando a irrigação necessária.

 

As ruas de Mendoza, entre a 13h e as 16h, ficam desertas, as lojas e todo o comércio fecha, para a “siesta” dos mendocinos.

A vida é muito barata, pago 1 euro (cerca de 6 pesos argentinos) por um bom naco de bife de vaca do lombo. No entanto, nos últimos anos, o preço médio de todas as coisas aumentou cerca de 30 %.

 

A carne aqui é uma coisa de outro mundo. Como carne dia sim, dia sim, porque para além de não haver carne melhor que esta, é difícil encontrar peixe fresco em Mendoza, apenas peixe congelado e muito pouca variedade.

 

Tratam-me muito bem na Finca Flichman, quase todos os meus colegas têm uma média de idade entre os 25 e 35 anos, o que permitiu criar grandes laços de amizade. Os horários de trabalho são um bocadinho duros, levanto-me todos os dias as 6h, porque a Adega é fora do centro, e demoro cerca de 1 hora até ao local de trabalho. Nada que não se resolva com uma “siesta” no caminho de volta para casa, ou com a vista fenomenal com que me deparo todos os dias.

 

 


O famoso “asado” (churrasco), aos domingos com a família, o “mate” (chá) todos os dias, a “tortita” ou “media luna” ao pequeno almoço, a “chocotorta con dulce de leche”, o “alfajor” e a “siesta” são tradições que não se podem tirar aos nativos.

 

Aos fins de semana, aproveito para ir fazer um dos tantos tours que a cidade oferece. Desde visita a adegas, cavalgadas na montanha, rafting, trekking, ski no inverno, etc…

 

Tem um clima invejável esta cidade, lembro-me que deste que aqui estou (5 meses e uns dias) choveu durante 5 dias. Diz-se que é a cidade do sol e do vinho! Para mim é a cidade perfeita para amantes de vinhos e de desportos radicais. Hoje, penso, não me podia ter “calhado” melhor cidade que Mendoza como destino. Foi uma experiência incrível, cheia de surpresas, novas culturas e tradições. Obrigada Aicep!

 

2.

Porquê voluntariado na Argenina?

A Argentina destacava-se na América Latina por ser um país com uma vasta classe média que tinham acesso à saúde e educação. Nas últimas décadas, como consequência de políticas erróneas e corrupções, sofreu várias crises económicas que deterioraram a qualidade de vida da sua população. Este longo processo começou no ano 2001 quando se desencadeou uma crise aguda que levou toda a nação à beira de uma desintegração social, económica e institucional. A crise estrutural em que se encontra a Argentina gerou uma grande quantidade de habitantes com necesidades básicas insatisfeitas, desocupação, desnutrição, ou seja, uma deterioração dos sistemas de saúde e educação pública.

 

A Argentina está repleta de Instituições (Caritas, Cruz Roja e Rotary) que promovem e organizam os projectos de voluntariado (projectos sociais, ambientais, educacionais, entre outros) e estão muito virados para o voluntariado internacional. 

 

Das plantações no Sol, à neve citadina e aos desportos subaquáticos (Narrativa do Viajante) - contributo espontâneo

Alexandre Gouveia | C15

Madrid | Espanha

 

 

No quilómetro 0 de Espanha situa-se a Porta do Sol. A praça com a estátua equestre de Carlos III, as fontes adornadas por um pequeno jardim, a estátua do simbólico urso e o medronheiro representante do brasão da cidade, indica o centro das entradas radiais espanholas e é considerada como uma visita turística obrigatória a qualquer viajante que se acerque de Madrid.

 

Com apenas um euro despendido num dos meios de transportes mais populares desta cidade é possível chegar ao Sol do aeroporto desta cidade (Sol tanto pode ser uma referência ao bairro como à estação onde se pode encontrar a Porta do Sol).

 

A 15 de Maio de 2011, iniciou-se o movimento 15-M, um conjunto de manifestações espontâneas e pacíficas sem precedentes, desencadeadas pelas actuais condições políticas, económicas e sociais em Espanha. Milhares de pessoas invadiram as ruas de várias cidades do país iniciando um protesto contra as medidas “anti-sociais” (assim denominadas pelos participantes) tomadas pelo governo em 2010 para resgatar os bancos da crise financeira europeia. Na noite deste mesmo dia, 150 a 250 jovens iniciaram um acampamento na Porta do Sol, que se prolongou durante um mês. Oficialmente o seu término deu-se a 12 de Junho. No entanto permaneceu um posto de informação permanente sobre o movimento, e algumas pessoas decidiram permanecer acampadas por tempo indefinido (ainda hoje podemos encontrar colchões e tendas de campismo à volta da estátua de Carlos III). As tendas do acampamento foram ocupando o espaço da praça quase na sua totalidade e algumas acabaram por receber funções específicas até ao final. Assim, no Sol podiam encontrar-se tendas de informação e logística, uma tenda cantina (“comedor”), tendas para efectuar protestos, para protecção dos animais, customização de t-shirts, de posters, e inclusive, tendas de relaxamento, de enfermaria e de biblioteca. Ao redor das próprias fontes da praça, onde se podiam ver os típicos jardins com plantas decorativas, encontravam-se pequenas plantações de vegetais e leguminosas bem conhecidas e criticadas pelo governo alemão durante os últimos meses, como inseguras para consumo.

 

Mesmo a planta cujo cultivo em Espanha se perfila como uma actividade instrumental, que só alcança relevância jurídico-penal ao ter como finalidade o tráfico de estupefacientes (Wikipedia), estava enraizada num local propositadamente visível ao público e suportada por um letreiro onde se podia ler a palavra “Canabis”.

 

Porém, para além do acontecimento histórico e destes factos únicos que presenciei, pude também observar algo muito pouco comum no mês de Março, mesmo para os padrões madrilenos. Tratou-se de um acontecimento meteorológico que nunca presenciei na minha cidade natal em Portugal. De um dia para o outro pudemos observar o solo da cidade coberto por uma camada fina de neve e durante os seguintes dias ocorreram algumas nevadas ou chuvas intensas de gotas parcialmente congeladas.

 

Na realidade, este tipo de chuvas tratou-se de nevadas que atravessando a capa de contaminação (observável no céu de Madrid como uma abóbada de nevoeiro cinzento (fotos) liquidificam devido ao significativo aumento da temperatura dentro desta. Pude constatar a diferença na precipitação no dia em que saí de Madrid em direcção a Barcelona. Ainda na cidade, a baixa temperatura da chuva parecia trespassar o casaco impermeável que levava, no entanto não se encontrava neve em parte alguma da cidade. Ao percorrer alguns quilómetros, saindo da orla de Madrid, notámos que a camada de neve aumentava significativamente, até que na primeira gasolineira que parámos (situada numa planície que parecia coberta por uma manta branca a perder de vista), pudemos desfrutar de algumas actividades simples e típicas de viajantes expectantes e entusiasmados por encontrarem um pouco de neve à beira da estrada.

 

Esta viagem a Barcelona foi particular, e não só por isto. Realizei-a no âmbito do campeonato espanhol de Hóquei Subaquático. Este desporto praticado em piscinas (com alguns elementos semelhantes ao Hóquei em patins) é relativamente recente em Portugal e vai ter o seu próximo campeonato do mundo em Coimbra a 16 de Agosto de 2011. Sou fã, praticante e federado há 2-3 anos e pude constatar que o desporto tem adeptos em Espanha há bastante mais tempo do que em Portugal. A equipa nacional de juniores ganhou o campeonato do mundo na África do Sul no ano de 2008, composta na sua totalidade por atletas do clube madrileno. Assim que cheguei a Madrid, procurei o clube e tive a oportunidade de jogar com a sua equipa em campeonatos espanhóis, em diferentes cidades. Através desta equipa, pude encontrar o Rugby Subaquático, desporto actualmente não praticado em Portugal, que possui algumas equipas em Espanha, e por isso, juntei-me à equipa madrilena e joguei num Open internacional em Madrid e num outro campeonato nacional novamente em Barcelona.

 

Sem dúvida que foram duas actividades subaquáticas que, apesar de estar a viver a mais de 300 Kms, quer do oceano, quer do mar, mudaram definitivamente a minha estada e vivência em Espanha de uma forma que nunca poderia ter imaginado. Por estranho que pareça, a vontade de praticar estes desportos física e psicologicamente exigentes, para além de aproximar culturas e pessoas de várias partes do mundo (visto que as equipas nacionais não são necessariamente constituídas na sua totalidade por espanhóis, aliás, nenhuma que encontrei o era), permitiu que a simples diversão ao praticá-los constituísse um dos pontos de contacto mais fortes com a maior diversidade de culturas em toda a minha experiência internacional actual.

 

 
E se achas que a Roménia é que é vota Ana Salomé! (Narrativa do Viajante) - Contributo espontâneo
 
Ana Salomé Pinto|C15

Sonae Sierra Corporate Services

Bucareste|Roménia

 

Quando decidi embarcar nesta nova aventura, já com um algum background de viajante, a verdade é não tinha pensado num destino que me satisfaria em pleno ou num que me faria desistir desta oportunidade.

 

À espera do destino vencedor, e já passada a letra P. e sem me ocorrer mais nenhum país, é-me dada a notícia de que estaria destinada a residir na Roménia nos próximos 6 meses. Fico alegre, fico triste? Eis a questão. Todos achamos que sabemos algo sobre este país de Leste, mas é tão surpreendente, que às vezes é complicado recuperar o fôlego de tanta nova e inesperada experiência que nos proporciona.

 

A Roménia, apesar de já ser parte integrante da União Europeia desde 2007, continua a ter a sua própria moeda, o Leu. Pensando que 1 Leu corresponde a cerca de 25 cêntimos e que 1 Leu é a nota mais baixa, as moedas quase nada valem. Parece que se anda sempre com imenso dinheiro no bolso. Recordo uma situação caricata em que tentei pagar um táxi com algumas notas e moedas e o taxista quase que preferiu não receber o que lhe era devido, pois segundo ele, In Romania you do not pay with coins.

 

Pequenas situações como estas, acompanharam toda a minha estada romenesca proporcionando, umas vezes, um sorriso de orelha a orelha e outras vezes apenas indignação.

 

Isto, porque a Roménia é uma dicotomia constante. Vivo em Bucareste numa avenida extremamente próxima do segundo maior edifício do mundo, a Casa Popolurui, mas ao sair de casa tenho uma pequena feira à porta. Tudo se vende na rua, desde a maior diversidade de flores, de roupa, que muda de dia para dia, pilhas ou detergentes.

 

Alguém pode estar a tocar violino ou com uma balança para quem quiser saber o seu peso. Antes de entrar no metro, que por si só está repleto de pequenas lojas onde, mais uma vez, se pode encontrar de tudo, um Dacia (típica marca de carro romeno) e o mais recente modelo de um Porsche nunca antes visto, compartem o caótico trânsito que caracteriza Bucareste. Muitas vezes também compartem o estacionamento desordenado em cima de passeios ou na via pública com uma multidão que se atropela no seu caminho de sentido único.

 

O próprio clima se contradiz a si mesmo. Um frio intenso que torna as ruas intransitáveis no meio de neve, gelo, passeios inacabados e constantes obstáculos contrastam com um sol acalorado, muitas vezes insuportável, misturado com pequenos dilúvios de final de tarde.

 

Uma cidade de blocos iguais e pequenas moradias residenciais. Andar em Bucareste constitui um estímulo constante para a mente. O cheiro a tílias na Primavera e o vento gélido no Inverno.

 

É uma cidade dos namorados para os enamorados. Por outro lado, é a cidade dos cães abandonados e desdenhados e de pessoas necessitadas.

 

A noite é a continuação do dia, com uma luz que nunca vi em qualquer outra capital europeia. A Roménia faz fronteira com a Hungria, Ucrânia, Sérvia, Bulgária e Moldávia. É um País onde se fala uma língua de origem latina, mas que nada tem a ver com as origens das línguas nativas dos seus países vizinhos. É um diamante em bruto, à espera de ser descoberto. Felizmente eu tive essa grande sorte.

Madrid - Centro de Negócios/Capital de Cultura (Narrativa do viajante) - contributo espontâneo

Hugo Campos | C15

Madrid | Espanha

 

 

Analisando sumariamente, e sobre uma perspectiva macroeconómica, vemos que a cidade de Madrid teve em 2009 um PIB de 202.223 milhões euros (fonte: el Economista). Contraponho com o PIB de Portugal no mesmo ano, 163,300 mil milhões de euros (fonte: Jornal de Negócios), o que demonstra que a capital espanhola produz aproximadamente 8,1% do PIB de Portugal, tendo um PIB per Capita de 30.142 € (2010) num total de 6,3 milhões de habitantes, o que nos dá uma ideia do volume de negócios anual existente nesta cidade. Não seria de esperar uma outra situação numa cidade capital europeia, centro de negócios e turístico e, sobretudo, "optimizada" para o bem-estar, seja ele definido por lazer, cultura, arte ou diversão, o que me remete para uma música de Bruce Springsteen (Dancing In The Dark): "there is always something happening somewhere", a cidade não pára, fervilha de vida e o turismo acontece a qualquer altura do ano, tendo em 2010 cercada de 9,8 milhões de turistas gastando em média, cada um deles, durante a sua estada, 157€/dia o que corresponde a 5,3% PIB da cidade (fonte: madridiario).

 

Madrid é a capital de maior altitude na Europa. Foi fundada pelos árabes como uma fortaleza, assim permanecendo até que Afonso VI a ocupou, em 1083. Felipe II fez dela a capital da corte em 1561. Desde então a cidade floresceu, tornando-se vibrante, dinâmica, moderna sem deixar de preservar seu património histórico e cultural. O ritmo de correria, de confusão, de autocarros cheios, de pessoas nas ruas como se fossem em piloto-automático, dos taxistas e condutores stressados buzinando, por tudo ou por nada, são parte constante do quotidiano... e o ar... o ar pesado e negro, quase diria tóxico, que nem se apercebe que o respiramos até sairmos fora do centro e vermos o efeito estufa que se cria, como se fora uma cúpula acastanhada, por vezes cinza escura, que cobre a cidade.

 

Para quem pretende fazer uma visita à capital espanhola, alguns pontos de referência são a Puerta Del Sol, a Plaza Mayor e o Palácio Real (séc.XVII), a Ópera, o Museo Del Prado, o Centro del Arte Reina Sofia e a Plaza da España. A cidade velha está situada entre o Palácio Real e o Parque del Retiro; e entre Lavapies ao sul e Glorieta de Bilboa a norte. No centro, fica a Puerta del Sol, onde está situado o quilómetro 0. Este é o ponto de onde são medidas todas as distâncias em Espanha. A história fica por aqui, mas não termina, pois esta cidade esplendorosa está a um salto de nós, portugueses… e merece tanto a pena ser visitada. "Las despedidas son siempre un poco tristes. En esos últimos días todo que hacemos ya tiene ese carácter: de adiós."

A Xana vai ao Hospital na Roménia (Narrativa do Viajante)

Alexandra Sepúlveda | C15

Consulgal Proiect Srl.

Bucareste | Roménia

 

Segunda-feira acordei surda. Surda, muito surda, surda como uma porta! Como convivo desde pequena com otite crónica, apesar de não ter dores, achei por bem ser tratada de imediato.

 

Começa a aventura.

 

Recomendaram-me uma clínica que não fica muito longe do centro, mas que nenhum taxista sabe onde fica. Depois de muito discutirem, procurarem em livros (!) e tudo o mais, um deles predispõe-se a levar-me por uma bagatela e lá vou eu. Quando chegamos à zona em questão, não só me apercebo que estou num bairro com péssimo ambiente como não consigo dar com ela. Depois de muita discussão e tentativas falhadas, estamos de volta ao centro.

 

Pago-lhe, telefono a pedir ajuda - mandam-me para um hospital nos quintos. Desta vez tento precaver-me e ligo para o mesmo, do qual me dizem que não têm otorrino e que me devo dirigir a um outro hospital localizado no centro. "Pelo menos é no centro!"

 

Ok, vamos lá! Ninguém fala inglês pelo que tenho uma grande oportunidade para pôr o meu romeno à prova - o pouco que falo. Consigo dizer que é uma urgência, e que me doem os ouvidos, e dizem-me para aguardar numa sala de espera, juntamente com outras pessoas à espera de consulta. A dada altura vejo o staff a sair daquela sala com um cesto de medicamentos, gazes e outro equipamento hospitalar. Todos os seguem. Desaparecem da minha vista e fico sozinha. "Boa." Espero 5 minutos até que resolvo perguntar a alguém o que se passa. Lá me indicam uma outra sala para onde transferiram as consultas e à porta da qual esperam os meus companheiros de maleitas.

 

Chega a minha vez e sou vista por quem parece ser uma estagiária de medicina, sob supervisão da médica mais experiente. Escarafuncham-me os meus ricos ouvidinhos como quem escarafuncha o resto de um sumo de pacote com a palhinha. Se não me doíam os ouvidos passaram a doer mas 'tá bem. Mostram-se espantadas pelo pouco romeno que falo, por estar a trabalhar em Bucuresti - reacção à qual já me habituei, ficam sempre surpreendidíssimos por andar por cá uma portuguesa.

 

Deito-me numa marquesa com o ouvido direito para cima e enchem-no de um líquido, cujo som a efervescer no meu canal auditivo se assemelha ao da soda cáustica nos canos lá de casa - oh meu dEUS, que é isto? Cerca de 20 minutos depois (durante os quais outros pacientes foram assistidos na mesma sala), uma enfermeira senta-me num banco, e encosta-me ao ouvido uma daquelas bandejas que antigamente eram usadas para recolher urina nos hospitais portugueses - em INOX? Claro que não... Em esmalte! "Segura aqui!" Seguro. Por várias vezes sinto o meu ouvido invadido por jactos de água fria vindos de uma seringa que também teima em fazer o seu caminho pelo meu canal auditivo abaixo. Não consigo deixar de dar um esgar de dor enquanto penso que se calhar já era altura de aprender a praguejar em romeno!

 

Ainda meia atordoada sou abordada pela estagiária de medicina que me passa uma prescrição e que, face à minha incapacidade de balbuciar qualquer palavra em romeno, me começa a falar em inglês.

 

"Inglês? A sério? Falas inglês e só agora é que mo dizes?" Queixo-me que agora sim, me dói o maldito ouvido, e obtenho uma resposta deveras peremptória: "Claro que dói! É por causa do trauma que eu te induzi!"

 

Ainda bem que é por isso. Não replico - para quê? Retiro-me, sem pagar nada (ninguém me pede identificação, dinheiro ou seguro) e dirijo-me a uma farmácia. Cobram-me menos de 1€ pela medicação - um frasco meio tosco - e perguntam-me se não deverei levar algo com o que aplicar o medicamento. "Errm...Se calhar devo." Vendem-me uma seringa por 0.25€.

 

Souvenir

O panorama, já de si caricato, intensifica-se quando tenho a (in)feliz ideia de pesquisar o nome do dito medicamento no meu querido e adorado Google.

 

Rivanol - Pó amarelo, cristalino, antisséptico da pele, empregado no tratamento dos animais.

 

Dah. Aceito.

 

A verdade é uma: estou impecável e durante todo o tempo que estive no Hospital não me senti num local estranho. Pelo contrário, até parecia um hospital bem à moda portuguesa!

 

Esperemos que não precise de lá voltar. 

Rede Brasil Voluntariado (Voluntariado)

Pedro Alves | C15

QUARK - Produtos Médicos

São Paulo | Brasil

A REDE BRASIL VOLUNTÁRIO foi criada por alguns centros de voluntariado – centros de Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo – e surgiu pelo desejo comum de contribuir para um impacto mais efectivo do voluntariado na sociedade brasileira, potencializando os esforços que ocorrem por todo o Brasil.

Esta rede, através da criação de grupos de discussão, possibilita a troca de informações sobre voluntariado e potencia o aumento do impacto das acções realizadas. Permite, além disso, a identificação de projectos, iniciativas e soluções que possam ser realizados em conjunto, procurando minimizar custos, compartilhar experiências e capacidade de trabalho, assim como potenciar resultados a nível nacional. Esta entidade acredita que, através da multiplicação das experiências de cada um dos seus membros, será possível ampliar ainda mais o alcance do trabalho dos voluntários em todo o país.

Caso do Estado de São Paulo - Acções de Voluntariado:

O Centro de Voluntariado de São Paulo (CVSP) participa na Rede Paulista de Centros de Voluntariado, que reúne centros e núcleos de voluntariado em todo este estado brasileiro, com a proposta de criar elos entre os que desejam doar o seu tempo, trabalho e talento a pessoas e instituições que necessitam de apoio e ajuda. Estes centros são espaços que ajudam a identificar oportunidades criativas e de participação solidária, apoiando programas e instituições a aperfeiçoar a mobilização e gestão de voluntários, além de estimular a realização de acções voluntárias que respondam às necessidades sociais não atendidas. Cada um deles contribui para a consolidação de uma cultura do voluntariado responsável, estimulando e apoiando em cada um de seus municípios novas iniciativas de cidadania e solidariedade para que, deste modo, aconteçam cada vez mais e melhores acções de voluntariado. Cada um realiza actividades e projectos adaptados à realidade local, mas com a consciência de que juntos podem fazer mais.

+ informação:

http://www.brasilvoluntario.org.br/

“We’re all living in America” (Narrativa do viagante)

Ricardo Meireles | C15

Cisco

San Jose | USA

 

 

Quando as coisas correm bem, os acontecimentos sucedem-se de forma mais rápida. Depois de tomar conhecimento da empresa, país e cidade de destino, foi num ápice que me encontrei em São Francisco, Califórnia. Uma vez que o meu destino se trata de um país onde o conceito de livre circulação de bens e pessoas é um pouco diferente do nosso (Portugal/Europa) tive inevitavelmente de preencher todos os requisitos para poder entrar legalmente nos USA. Depois de umas viagens à capital e uns ingressos preenchidos, estava tudo resolvido.

 

«USA here I go». A entrada num país como os Estados Unidos tem de respeitar um certo número de protocolos, onde as pessoas parecem ser tratadas como mercadoria, mas talvez isto seja necessário em nome da segurança e da eficácia.

 

Apesar de o destino ser San Francisco, cidade ligada aos movimentos de emancipação, não me fiquei por aqui, embora os primeiros dias tenham sido passados nesta cidade de enorme riqueza cultural e à qual naturalmente regressaria inúmeras vezes.

 

Mas, afinal, eu vim para a América com o objectivo número um de trabalhar, e é aí que surge San José, a auto-intitulada Capital do «Sillicon Valley». Inserida dentro do Vale do Silício San José, é uma cidade de dimensões superiores a San Francisco, e com grandes comunidades, Mexicana, Asiática, Portuguesa, entre outras. “Os portugueses estão em todos os cantos do mundo”, é verdade. Também aqui nesta Cidade do «far West» existe uma grande comunidade de Portugueses, maioritariamente concentrados na Little Portugal, onde se podem encontrar serviços, restaurantes e comércios ligados a Portugal. E quem é fã de futebol pode sempre assistir aos jogos em associações ligadas aos dois maiores clubes da capital.

 

Uma cidade plana, com arredores a perder de vista e serpenteada por gigantescas auto-estradas que ligam as grandes cidades da Costa do Pacífico. Mas, chega de falar de San José, falemos agora do estado Dourado, a Califórnia.

 

O nome do estado vem da novela Las sergas de Espladián (As aventuras de Espladián), do século XVI, a qual foi escrita pelo espanhol Garci Rodríguez de Montalvo.

Posso orgulhar-me de ter visitado espaços naturais lindíssimos: Yosemite, parque nacional delimitado por muralhas de granito de uma altura descomunal, coberto de sequóias milenares, assim como um cem número de espaços protegidos onde é possível apreciar a natureza no seu estado mais primitivo E as grandes cidades como San Francisco, Los Angeles ou San Diego.

 

Se a Califórnia fosse um país seria, a par de Portugal, um dos mais belos do mundo e, ao contrário do nosso país, uma das mais poderosas economias do planeta.

 

Tive também oportunidade de visitar outros estados, e pelo que pude verificar em conversas com outras pessoas, a Califórnia é um estado à parte, devido às suas riquezas naturais e à diversidade cultural que encerra em si mesmo este estado. Além disto, a Califórnia é facilmente reconhecida pela qualidade das suas Universidades e pelas indústrias do entretenimento e tecnológica Quanto aos USA, “We’re all living in America”

 

 

L´Étranger (Narrativa do viajante)

Nona Panayotova | C15

Parque Expo

Belgrado | Sérvia

 

 

 

“Aujourd´hui maman est mort.” Foi o L´Étranger, de Albert Camus que me acompanhou na viagem de Lisboa para Argel. Curiosamente leio-o em Belgrado. As primeiras palavras que me ocorreram para descrever Argel foram orgânico e geração espontânea. Reina o caos na cidade, a poluição, um ar pesado e carregado. Andamos nas ruas e há uma gradação de paisagens, tudo se mistura e funde. Passamos da arquitectura de Paris, às Ramblas em Barcelona. Ao Raval. Mas também poderíamos estar em Itália. Ao mesmo tempo que o cheiro a Kebab nos faz lembrar a Turquia, o comércio recorda-nos Marrocos. E assim saltitamos nas nossas memórias e mergulhamos numa mistura de sensações. É Curioso como nós criamos a nossa própria realidade, criamos uma bolha à nossa volta e o nosso mundo. Não posso dizer que sinta falta dos altos muros de arame farpado e da vida que mudava ao sair das quatro paredes do nosso bureau na Rue Victor Hugo. Dentro de certos espaços, éramos de facto livres, mas a liberdade não é para além do infinito? Ficou um sonho por concretizar, ir ao deserto.

Não é o Miguel Sousa Tavares que diz que todos deviam ir ao deserto antes de morrerem? Porque, muitas vezes, para nos encontrarmos temos que nos perder primeiro. Quando finalmente ia começar as minhas aulas de yoga e entrar na minha vida argelina foi tempo de partir.

 

Após alguns dias, quando aterrei de verdade em Beo, tive consciência desta nova realidade, tão distante e tão diferente de tudo o que vi, vivi e senti na Argélia. Parecia que já me tinha esquecido de como era a vida na Europa, o que significava ter uma dita vida normal. De repente, os meus olhos enchiam-se de esplanadas cheias de mulheres, homens e crianças, de manhã à noite. Fervilha vida nesta cidade. Ando pelas ruas sentindo e vivendo esta nova realidade. Este novo mundo de descobertas. São as pessoas que fazem as cidades e não o contrário. Esta manhã, em Belgrado, sentada no trolley a caminho de mais um dia de trabalho, observo a paisagem através da janela. Quando me sentei, pensei: “Esta viagem está quase a terminar. Não há mais nada para ver”. Contudo sei que não é assim. “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.” José Saramago. Abrem-se as portas. Saio na minha paragem. 

Squinty Eyes (Narrativa do viajante)

Sara Cristina Faria Geraz | C15

J. T. Barbosa Vinhos, Lda

Shangai | China

 

Estamos em Shanghai. Eleita recentemente a cidade mais populosa do mundo, não há maneira possível de eu conseguir expressar em palavras ou fotografias estes últimos 6 meses. Acredito piamente que é preciso experienciar, observar, ouvir, sentir, absorver para perceber…

 

Esta narrativa do viajante é por isso, desde já, um desastre anunciado.

 

Dia 25 de Janeiro de 2011 aterrei nesta alucinante metrópole, atordoada e exausta, inevitavelmente lutando contra um doloroso jet lag, porém já histérica e deslumbrada com tudo que me rodeava. Estava no outro lado do mundo. E não podia ser mais diferente. Aproximava-se o Ano Novo Chinês e a sua iminência tornava a confusão nas ruas mais grave do que o usual. Os prédios altos enchiam-me a vista, a azáfama das ruas, simultaneamente tão fascinante e cansativa, confundia-me.

 

Quando se ouve falar da China, muitos estereótipos nos saltam imediatamente à mente, desde os hábitos alimentares aos padrões de higiene muita coisa se diz. Vim a confirmar que a maior parte são realmente verdade e não me vou alongar a descrever pormenores.

 

O choque cultural já tinha sido esforçadamente salientado, de maneira que não me deixei abalar. Decidi antes saltar da minha zona de conforto, esquecer o meu pequenino mundo ocidental e abrir a mente para receber tudo que este país me poderia ensinar. Aprendi a apreciar a diferença, a enriquecer o espírito com ela. Aprendi que nem sempre precisamos de falar a mesma língua para conquistar um sorriso ou para nos enamorarmos de algo. Joguei badmington com uma criança desconhecida, ri-me com eles sem os perceber, dancei com um idoso na rua, preocupei-me pouco em entender, concentrei-me antes em deleitar-me e aspirar o mundo que me rodeava.

 

Descobri um povo generoso, harmonioso e feliz, apesar das dificuldades ou restrições de liberdade impostas. Ideias pré-concebidas e preconceitos de nada servem para um entendimento puro desta sociedade tão profundamente diferente. Nem sempre foi fácil, é verdade, sou uma homesick por natureza e tive as minhas fragilidades… Mas, o balanço é sinceramente positivo. Às pessoas que toquei e me tocaram de alguma forma, um sincero obrigada, por enriquecerem esta deambulante alma viajante...  

Da água para o vinho (Narrativa do viajante)
Miguel Magalhães | Odebrecht Services GmbH | Viena | Austria

Miguel Vasconcelos Magalhães | C15

Odebrecht Services GmbH

Viena | Autria

 

Depois de uma curta noite de sono entramos finalmente nas últimas horas de formação. Três dias de ansiedade crescente num auditório que marcaria profundamente, para todos e cada um de nós, os meses que se seguiriam. Chegava o grande momento de finalmente sabermos quais os destinos que nos estavam reservados. Um ecrã, centenas de pessoas, dezenas de destinos; um auditório cheio e, no ar, uma expectativa electrizante. Depois de uma sessão emocionalmente intensa todos ficaríamos a saber qual o próximo “sítio” das nossas vidas.

 

No rescaldo, alguns choros, muitos sorrisos, gente alegre e outros ainda a procurarem fazer as pazes com a sua sorte. Uma coisa era certa, no mês que aí vinha todos estaríamos bem longe daquele auditório: uma vida nova, à partida…

 

Ao chegar ao destino, o árabe falado nos corredores traz-me à memória uma viagem que fiz por Marrocos. O meu chefe à espera no aeroporto, preparado para me levar directo ao escritório. Comigo, o pesado processo de um concurso que entregaríamos em dois dias. Corremos a via rápida que ligava o aeroporto à cidade num “ziguezaguear” constante. As faixas marcadas no pavimento funcionavam como uma grelha que emprestava escala ao fluido movimento dos veículos. As três faixas originais davam ocasionalmente lugar a quatro, cinco ou seis carros a rodar em paralelo numa normalidade completamente enraizada. O que à partida parecia o caos funcionava perfeitamente de acordo com as leis da física: enquanto houver espaço, passa-se. A princípio estranhei, mas passados os dois primeiros sustos tranquilizei-me. Para lá do caos havia um sistema: o funcionamento era orgânico!

Durante aproximadamente um mês, constatei que o “sistema orgânico” que havia descoberto no trânsito se reflectia nos mais diversos sectores da sociedade. À partida, encontrava-me num país bem diferente, mas sempre que pensava um pouco mais sobre o assunto, era como se me lembrasse do Portugal de há 20 anos atrás, mas mais intenso. Diferente nos hábitos, diferente nos costumes, toda a gente a falar árabe à minha volta. Mulheres completamente cobertas na rua e jamais desacompanhadas (pois pode parecer mal), cinco vezes ao dia o Imã nos altifalantes a inundar as ruas com o chamar para a reza, um estado de emergência imposto, com dezenas de barreiras policiais espalhadas pela cidade concretizando a face mais imediatamente visível do estado autoritário.

Foi assim que tive o privilégio de me encontrar num dos países onde parecia que ia chegar a Primavera Árabe. Para dizer a verdade, várias vezes me vi envolvido em conversas profundas sobre política e sobre o sistema; sobre a figura central do regime, o presidente Abdelaziz Bouteflika, figura chave na cena política recente, em grande parte responsável por trazer alguma estabilidade a um país que estava mergulhado numa violenta guerra civil. A bem dizer, nunca me senti em perigo, embora tenha seguido o conselho da embaixada de Portugal de não sair de casa nos dias de manifestações marcadas (mais vale prevenir que remediar).

 

Ao fim de um mês recebo um telefonema. Era uma quinta-feira como outra qualquer. Do outro lado da linha a minha coordenadora de estágio informa-me que teremos de sair do país. Estava decidido e que iríamos ser recolocados noutro mercado. A AICEP já tinha tido de evacuar outros estagiários de países como a Líbia e o Egipto e, ao que parecia, não o queria ter de fazer novamente. Apanhado de surpresa ainda procurei saber se teríamos opção, mas o meu destino já estava traçado.

 

Em menos de uma semana troquei a Argélia pela Áustria. Da água para o vinho com Portugal no meio-termo. Chegado a Viena, depois de uma experiência tão intensa em Argel onde até o simples apanhar do autocarro constituía uma verdadeira aventura, senti-me imediatamente em casa: estava de volta à Europa familiar. A grande diferença é que aqui tudo funcionava. Aqui, volto a conseguir sair de casa pela manhã e saber quanto tempo levo até ao trabalho…

 

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