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Recessão Americana: realidades e oportunidades
 

 

 


 

 

Nelson Peneirol
Mota e Engil
Miami, E.U.A.

 

 

 

A economia mais poderosa do mundo entrou, de forma mais visível, em recessão no último ano. As tendências negativas fazem parte do crescimento de qualquer economia, no entanto, os reveses de 1990-91 e 2001 diferenciam-se do cenário actual, em extensão e em profundidade. A crise do subprime foi assim apelidada por ter origem nos créditos de risco com o mesmo nome, que se expandiram com a bolha da construção residencial, iniciada no final do século XX.

Até à década de 80 o sector bancário dos EUA era muito regulado e fragmentado. Bancos regionais e de pequena dimensão eram utilizados pelas diversas comunidades para depósitos e empréstimos para habitação, geralmente de longo prazo e com taxas fixas. Com a desregulamentação e a subida das taxas estes bancos não atraiam depósitos e geraram enormes perdas entrando em bancarrota. Esta crise ficou conhecida como Savings & Loans.

O departamento do Tesouro decidiu intervir para evitar as perturbações que estas falências provocaram assumindo os seus créditos, num volume total de $400 mil milhões. Sem haver um comprador único para este “embrulho” optou-se pela titularização destes activos, ou seja, combinavam-se empréstimos em pacotes que os bancos podiam comprar e vender. Este mercado tornou-se bem sucedido e expandiu-se, o que possibilitou à banca a diversificação das suas carteiras de empréstimos.

Nos anos 90, com o crédito em expansão, tornou-se possível conceder empréstimos a grupos de maior risco. Assim se criou o denominado mercado subprime. Imagine-se um casal jovem e de carreiras promissoras que quer comprar casa, ou uma família de meia-idade que faz uma hipoteca para financiar a montagem de um negócio ou investir em novos imóveis. Conseguiam obter um contrato a longo prazo, tipicamente a 30 anos, em que nos primeiros as taxas eram baixas, devido ao facto de necessitarem de liquidez, subindo os juros consideravelmente nos restantes anos para compensar o risco. Não são imprudentes estes empréstimos, mas são com certeza arriscados.

A sobrevalorização de vários mercados imobiliários, nomeadamente Florida, Califórnia, Arizona, Havai e Nevada, onde se registavam crescimentos recordes dos preços, promoveu a expansão do mercado subprime. Os projectos multiplicavam-se e o imobiliário tornou-se um bom investimento. Os imóveis valorizavam rapidamente e poder-se-ia em poucos anos renegociar com o banco e pedir novos créditos com base na hipoteca, sobretudo para reinvestir em novas propriedades.

No caso de quem pede o crédito não conseguir melhorar o seu emprego ou de a empresa criada não ser bem sucedida, criam-se situações de incumprimento. Esta taxa per si já é elevada neste tipo de crédito. Se ao mesmo tempo o mercado começa a corrigir do efeito de bolha e o boom habitacional pára, as taxas de incumprimento escalam.

O mercado arrefece, as vendas diminuem, o preço das casas baixam repentinamente e os agentes do crédito subprime começam a abrir falência. O facto de este tipo de crédito ter conseguido uma representação significativa na economia e existirem muitos Bancos a nível mundial cujos portfolios e fundos de investimento estavam assegurados pelos empréstimos subprime, faz com que a liquidez dos bancos reduza muito originado um credit crunch. Sem crédito não há possibilidade de acontecer a iniciativa privada com a mesma intensidade e a economia entra em recessão.

O mercado da Construção em específico, tal como na maioria dos países desenvolvidos, é nos EUA robusto e contribui com uma parte significativa da riqueza nacional. Esta situação de crise vinda do mercado da habitação desencadeou em termos globais uma mudança de investimento privado do sector residencial para o não-residencial, desde edifícios de escritórios a hotéis. Paralelamente o investimento público tem sido incrementado como medida anti-cíclica, o que se prevê que se mantenha crescente. Contundo, este sector não está a passar imune ao estado de recessão.

Outro aspecto sui generis da actual crise é o de que as economias em desenvolvimento não foram arrastadas. Economias como a Chinesa, Indiana, Brasileira ou Russa mantêm os seus rumos económicos de crescimento. Há sobretudo no Médio Oriente e na China classes médias emergentes a investir em infra-estruturas e na produção de bens, o que em retorno está a consumir os recursos, matérias-primas e serviços do resto do mundo.

A Reserva Federal Americana actuou com a baixa das taxas de juro, desvalorizou o dólar, de forma a incrementar a entrada de moeda estrangeira, através de investimento e exportações. Este cenário tem sido visto como uma oportunidade para essas mesmas economias, mais ricas e mais independentes, e que assim investem capital nos EUA numa perspectiva de médio a longo prazo.

Em termos de riqueza global e estabilidade a longo prazo, parece ser um cenário favorável a mudança da estrutura económica mundial. Mas no curto prazo o estilo de vida Americano parece estar ameaçado pelo preço elevado do petróleo e dos bens de primeira necessidade, pela moeda enfraquecida, pela redução drástica de acesso ao crédito e pela falta de dinheiro para consumo.

O grande trunfo histórico da sociedade Americana será provavelmente a rápida capacidade de mudança. Começam agora a surgir novos passos, por exemplo, na política ambiental face às mudanças climáticas e no aumento da produção de energia de forma sustentável. Go Green torna-se o lema do momento. Robert F. Kennedy Jr. referiu num artigo intitulado “The Next President’s First Task [A Manifesto]”, que a mudança de paradigma energético é essencial e deverá favorecer a economia, tal como à 200 anos a abolição da escravatura permitiu acabar com as ineficiências do trabalho a custo zero e dar início à Revolução Industrial na Grã-Bretanha, com enorme crescimento económico.

 

 

Fontes:

FLOYD NORRIS, A Construction Sector, Once Robust, Now Falters, The New York Times, 8 Março 08

RICARDO REIS, Explicando a crise do ‘subprime’, Diário Económico, 18 Agosto 07

ROBERT F. KENNEDY JR., The Next President’s First Task [A Manifesto], Vanity Fair, Maio 08

ROBERT B. REICH, The American Recession and the World's Emerging Economies, 11 Março 08

The Great American Slowdown, The Economist, Leaders print edition section, 10 Abril 08

Created By: Bruno Dinis
Published: 18-06-2008 10:42

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