Skip to main content
   
   
Go Search
Visão Contacto
  

Visão Contacto > Posts > Visão Contacto: Globalização - uniformização e/ ou diferenciação na arquitetura
Visão Contacto: Globalização - uniformização e/ ou diferenciação na arquitetura

Maria Manuel Pereira do Valle | C20 | Space Group Architects / SPOL Architects | São Paulo, Brasil

Singular, único, exclusivo. Numa sociedade onde, cada vez mais, se procura novas formas de comunicação e uma constante procura de identidade própria, o singular tona-se cada vez mais raro e, por consequência, mais apelativo.

Cidades como Paris, Veneza, Roma, Barcelona, Budapeste, Lisboa e Porto, tornam-se destinos populares pelas suas características únicas como o clima, história, cultura e arquitetura. Caraterísticas estas que, nos dias de hoje, são raras de se encontrar na cidade de São Paulo

Não sou conduzido, conduzo

Sendo a cidade mais populosa do Brasil, do continente americano, da Lusofonia e de todo o hemisfério Sul, São Paulo é o principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América do Sul.

Fundada a 25 de janeiro de 1554, após a construção de um colégio Jesuíta, São Paulo recebe o seu nome em homenagem ao Apóstolo Paulo de Tanso. Durante os primeiros períodos da sua fundação chegou a ser a região mais pobre da colónia portuguesa. Contudo, após a descoberta de Ouro na região de Minais Gerais , na década de 1690, o seu estatuto altera-se passando, 11 anos mais tarde, de vila para cidade de São Paulo. Após a o ouro se ter esgotado, a cidade vira-se para a produção de café e para a plantação de cana-de açúcar.

Pátio do Colégio -  Local onde foi fundado a Cidade de São Paulo

Pátio do Colégio - Local onde foi fundado a Cidade de São Paulo

Com a chegada da segunda guerra mundial, a crise na cafeicultura e as restrições ao comércio internacional, levam a uma taxa de crescimento exponencial, algo que gerou graves problemas, pois a cidade não se encontrava preparada para receber tantos imigrantes e refugiados da guerra.

Assim, o centro financeiro, que outrora se localizava no centro (ou centro histórico como é hoje conhecido), passa para a Avenida Paulista, levando à demolição das mansões aí existentes (muito poucas foram as que sobreviveram) e ao aparecimento, no seu lugar, de específicos ligados ao comércio. Poucos anos mais tarde, na década de 60, São Paulo atinge os 4 milhões de habitantes, tornando-se assim o município mais populoso do Brasil.

Nos dias de hoje, é a cidade brasileira mais influente no cenário Global e, por consequência, a 14º cidade mais globalizada do planeta, tendo sido classificada com a cidade global alfa pela GaWC (Globalization and World Cities Study Group & Network), o que, de certa forma, faz jus ao seu lema: Non ducor, duco (Não sou conduzido, conduzo).

Conhecida por exercer influência a nível nacional e internacional, a nível cultural, político e económico, São Paulo é sede de 63% das multinacionais estabelecidas no Brasil e têm a segunda maior bolsa de valores no mundo, a BM&FBovespa, tendo assim, acesso às principais rotas aeroviárias mundiais e às principais redes de informação no mundo. É a 7º cidade mais populosa do planeta, com 12 milhões de habitantes e a 8º maior aglomeração do mundo.

Atualmente, o seu crescimento desacelerou devido ao desenvolvimento industrial de outras regiões do Brasil. Contudo, esta cidade que outrora fora casa de um pequeno colégio jesuíta construído em taipa, São Paulo, passou de uma cidade com forte carácter industrial (uma cidade terciária, de certa forma) a ser o principal pólo de serviços e negócios do Brasil.

Devido à necessidade em responder a uma nova de cultura de comércio e design, o Brasil precisou de se adaptar, perdendo, de certa forma, a sua própria identidade.

Globalização: uma nova cultura de comércio e design

Tendo as suas raízes no Império Romano, quando estes pretendiam expandir os seus ideais pelo seu império, nos dias de hoje, a globalização nasceu da necessidade em responder a uma nova cultura de comércio e cultura design.

Esta última é apoiada por arquitetos que estudam, na sua maioria, outros arquitetos. Arquitetos que vêm a possibilidade e a potencialidade em construir edifícios com um design mais arrojado e ricos em materiais que no passado não seriam fáceis de adquirir e/ou comprar de uma forma tão rápida e a um custo tão baixo.

A cultura do comércio é conduzida pelas necessidades e expetativas dos consumidores que gera novas oportunidades de mercado, manifestando-se através de edifícios como arranha-céus de bancos, cadeias de hotéis padronizados, companhias de franchise e shoppings compostos por lojas e marcas conhecidas internacionalmente.

A globalização é capaz de oferecer novas oportunidades de uma forma mais acessível e familiar, reduzindo as nossas limitações e tornando-nos mais consciente do mundo à nossa volta. Abre novas oportunidades para a diversidade do individual, libertando-o para novas experiências que outrora poderiam tornar-se difíceis de viver devido às “fronteiras” que uma cultura possa apresentar.

Contudo, num mundo do mercado global, não existe um produto económico que não seja um objeto cultural. E o conceito de globalização nasce disso mesmo: do genérico e da padronização.

E São Paulo é o exemplo perfeito. Devido à necessidade em responder às imigrações em massa que a cidade foi sofrendo ao longo dos anos, a sua arquitetura tornou-se repetida e genérica, cujas poucas preocupações se basearam na rapidez e no rentável. Apesar de cada vez mais investidores procurarem algo mais singular, de forma a se destacarem num mercado tão saturado, estas não deixam de ser genéricas, até um certo ponto, pois o que interessa a estes investidores, no final é a qualidade e a eficácia que o processo e o resultado final mostram

É claro que, ao longo do tempo e à medida que Moçambique caminha para o desenvolvimento do seu país, também o seu povo, estando exposto a esta grande rede que é a Internet, irá caminhar na direção de uma estética global. Talvez em detrimento de si próprio, talvez em seu benefício.

It would be hard, to put it mildly, to think of great architecture that is produced efficiently, let alone architecture that is produced – and consumed – as efficiently, as, say, Chicken McNuggets. Architectural creations that have the character of Chicken McNuggets – mass produced and virtually identical to every other one – would be thought of by few, if any, as great architecture. George Ritzer in Can globalized commercial architecture be anything but highly Mcdonaldized?

Como Marc Augé refere na sua obra Não-Lugares, a arquitetura é algo que está ligada a um lugar e este reflete os seus ideais. O comércio de bairro, algo que ainda resiste na cidade de São Paulo, mas com alguma debilidade, destaca-se não pela sua arquiteura mas pela sua ligação com a cultura do local onde se insere, rica e distintiva no seu conteúdo.

Comércio Local - Relação entre espaços dedicados ao comércio de bairro e um condomínio privado

Comércio Local - Relação entre espaços dedicados ao comércio de bairro e um condomínio privado

Uma cidade ou um local, cuja arquitectura é “fabricada” e controlada, e desprovida de qualquer conteúdo, transforma-se em um não lugar. Porém, assim como é possível que estes não-lugares não sejam totalmente desprovidos de arquitetura que seja considerado algo, como acontece com os restaurantes da cadeia McDonalds, o oposto também existe. Um desses é o conhecido Shopping Light (imagem de destaque), no centro histórico da cidade. Outrora, edifício principal da empresa canadiana Light, responsável pelo serviço de energia elétrica da capital Paulista, este edifício que na sua fachada ainda apresenta todas as suas caraterísticas originais, abriga, nos dias de hoje, o Shopping Light. Apesar de albergar maioritariamente empresas conhecidas a nível mundial e que variam em conteúdo em resposta de acordo com cada lugar, este espaço dificilmente pode ser considerado com um não lugar.

Hoje em dia vivemos numa sociedade, cuja a rapidez e o barato prevalece, sobre o conteúdo e qualidade. A globalização, e por consequência este tipo de arquitetura, é uma resposta bastante adequada que oferece bastante vantagens. Contudo esta standardização resulta no desaparecimento dos poucos vestígios de identidade que a Cidade de São Paulo conseguiu, por enquanto, preservar, tornando-se assim numa cidade, em termos arquitetónicos, de tudo e de nada - numa cidade McDonaldizada.

Created By: Maria Manuel Pereira do Valle Feitas de Sousa
Published: 14-02-2017 18:26

Comments

There are no comments yet for this post.

 ‭(Hidden)‬ Content Editor Web Part ‭[2]‬

Visão Contacto