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Cinzento é o novo azul

Inês Glória | C23 | Embaixada de Portugal | Lima | Peru

Lima

O céu estava azul. Aterrei em Lima com os olhos a brilhar e muitos sonhos na bagagem, acompanhados de ambição, coragem e algum nervosismo. Cheguei com saudade de uma América Latina que ainda não conhecia – as cores, as pessoas, as peles morenas, os mercados, as tradições, a comida. Voei do fim do inverno para o princípio e mesmo assim continuam a dizer-me que não é possível viajar no tempo.

Lima é a terceira cidade mais congestionada do mundo e ainda que apenas quinze quilómetros separem o distrito de Miraflores do aeroporto, em plena hora de ponta, é o equivalente a uma ou, com sorte, duas horas de viagem. Percebi desde o primeiro instante que paciência e tolerância tinham de se tornar o meu forte. Era visível a desorganização ao redor; As imensas dificuldades e preocupações eram detetáveis a olho nu no rosto sereno das mães que permaneciam sentadas na beira da estrada enquanto as crianças vendiam água e chocolate. À medida que avançávamos o ambiente mudava e houve um momento em que senti que entrei dentro da bolha.

Esta é uma cidade de contrastes e é preciso sair dos distritos ditos recomendados para entender realmente as necessidades do país. É fácil acomodarmo-nos e pensarmos que o nosso dia-a-dia, vivido na bolha, espelha a realidade, mas não, nós vivemos a exceção.

Viver em Lima é quebrar estereótipos, é adaptar o paladar a um mundo de novas sensações, é descobrir que afinal também faz frio no hemisfério sul, é fazer uma festa se há sol em agosto e acordar todos os dias com esperança que os 90% de humidade tenham deixado a roupa secar. Viver em Lima é aprender a gerir a discriminação e perceber que o autocarro não vai parar para ti quando a tua roupa é formal, porque quem se veste assim vai sempre de táxi. Viver em Lima é saber que estes autocarros vão parar onde estão pessoas porque as paragens não estão sinalizadas, é gerir a frustração pela falta de informação acerca do destino e aprender a distinguir o metropolitano do metro, sabendo que o metropolitano é também um autocarro. Viver em Lima é aprender, melhor que nunca, a gerir o tempo. O meu tempo com o tempo dos outros.

Mudar de casa, cidade, país e continente é um auto ajuste, é um jogo de equilíbrio e emoções, é sentir poder de adaptação. Viajar no tempo tem um preço que estou a pagar caro – a constância dos dias cinzentos e consequente falta de sol. Mas, a verdade é que quem faz a cidade são as pessoas e depois de três meses e meio nas nuvens continuo feliz e aprendi uma grande lição, sou mesmo capaz de me adaptar a tudo. Já chamo de casa ao lugar onde vivo e os meus amigos são a minha família.

Cá em cima, no décimo sexto piso, já mais perto das nuvens e em território português aprendi a preparar e planificar cada contacto com o exterior porque ‘peruanamente’ falando, sexta-feira pode ser afinal segunda-feira e eu tive de aprender a garantir uma certeza no meio da incerteza. Ajustei o ritmo a cada pessoa, cada conversa e cada tarefa. Aprendi a ouvir mais e falar menos. Fiz o que não sabia fazer. Mas, aprendi. Vi o Presidente da República a dez metros e um prémio Nobel a cinco, cumprimentei o Ministro dos Negócios Estrangeiros e comprei abacates à senhora que carregava o filho às costas todas as manhãs.

Aquilo que levo na bagagem é o dobro do que trouxe mas, não pesa, nem ocupa espaço.

O céu está cinzento, já nem sei há quantos dias. E eu, estou feliz.

Ser feliz debaixo das nuvens

Ser feliz debaixo das nuvens

Created By: Ines Martins Gloria
Published: 10-10-2019 21:02

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