C15 |Paulo Braz
Falua Sociedade de Vinhos, S.A.
China |Macau
Queria China. Tive China.
Pelo menos até visitar a minha empresa em Estremoz e perceber que afinal era em Macau e não em Zhongshan que iria ficar colocado. Macau não é, pelos padrões de entendimento do Português comum, China.
Cheguei exactamente no Ano Novo Chinês entre Lai Sis e Kung Hei Fat Chois. Está tudo na rua e ninguém trabalha durante dias. Os dragões serpenteiam das Ruínas de São Paulo até ao Leal Senado levando tudo na frente. Deitam-se coisas fora e compram-se novas. Roupas, mobílias, carros. Visitam-se os templos e acendem-se incensos. Muitos incensos. Panchões rebentam nas ruas a cada segundo num barulho ensurdecedor. Dançam os Leões. Vêem-se coelhos em todo o lado que vão substituir os tigres que fizeram o ano anterior.
Não há melhor altura para chegar a Macau.
Passada a loucura das cores e dos sons começo a olhar à volta com mais calma. Os panchões ainda continuam a rebentar a cada bocado. Passado umas semanas os intervalos já são maiores.
Começo então a perceber que afinal tudo é diferente. É verdade que a influência portuguesa continua cá, para além da calçada portuguesa e dos sinais fracamente traduzidos do abundante comércio de rua (fracamente é, na melhor hipótese, um eufemismo), mas Macau é China. “China Light” se quiserem, mas China.
Os casinos dominam não só o skyline como Macau inteiro. Macau trabalha no casino, janta no casino, e sai à noite no casino. Passem às três da manhã numa mesa de Bacarat e estará alguém a jogar. Numa Slot Machine, uma senhora com uma idade avançada passa a sua tarde de Sábado a carregar num botão enquanto a máquina, ávida, vai recebendo dólares de Hong Kong. As mesas de Sic Bo enchem-se de gente que vai passando notas de mil ao croupier que, em troca, entrega quatro fichas verdes. Essas fichas vão para um quadrado que, dependendo dos dados, pode significar um sorriso ou outra nota de mil a sair da carteira.
Aprendemos a fugir aos casinos. Afinal, as ruas de Macau são bem melhores. A comida sabe melhor. Rapidamente percebo que é naquele restaurante com um dono simpático, com sorriso e olhos rasgados, azulejos que já foram brancos, tapetes que já foram tapetes e casas de banho que nunca o chegaram a ser, que vou comer a melhor comida de Macau.
Habituo-me rapidamente e adoro cada bocado.
Depois olho para o mapa. Estou no Sudoeste Asiático, não estou? Para onde posso ir? Tailândia, Laos, Cambodja, Filipinas, Indonésia... Ah, a China! É isso! Já me esquecia desse pequeno país.
Andar de barco entre os montes cársicos de Yangshuo. Visitar jardins, arranha-céus e edifícios geniais em Shanghai. Comer em Cantão e relaxar em Zhuhai. Estar em Hong Kong três vezes numa semana porque o trabalho o exige.
Sim, o trabalho. Também isso é bom. Tive sorte, muito mais do que julguei nos meus primeiros dias em Macau.
Agora vamos ver. Ouço falar no “vim para Macau por seis meses e estou cá há cinco, dez, vinte anos”. Não sei como será comigo. Macau já me convenceu a ficar mais uns meses. Será só por uns meses?