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Da água para o vinho (Narrativa do viajante)
Miguel Magalhães | Odebrecht Services GmbH | Viena | Austria

Miguel Vasconcelos Magalhães | C15

Odebrecht Services GmbH

Viena | Autria

 

Depois de uma curta noite de sono entramos finalmente nas últimas horas de formação. Três dias de ansiedade crescente num auditório que marcaria profundamente, para todos e cada um de nós, os meses que se seguiriam. Chegava o grande momento de finalmente sabermos quais os destinos que nos estavam reservados. Um ecrã, centenas de pessoas, dezenas de destinos; um auditório cheio e, no ar, uma expectativa electrizante. Depois de uma sessão emocionalmente intensa todos ficaríamos a saber qual o próximo “sítio” das nossas vidas.

 

No rescaldo, alguns choros, muitos sorrisos, gente alegre e outros ainda a procurarem fazer as pazes com a sua sorte. Uma coisa era certa, no mês que aí vinha todos estaríamos bem longe daquele auditório: uma vida nova, à partida…

 

Ao chegar ao destino, o árabe falado nos corredores traz-me à memória uma viagem que fiz por Marrocos. O meu chefe à espera no aeroporto, preparado para me levar directo ao escritório. Comigo, o pesado processo de um concurso que entregaríamos em dois dias. Corremos a via rápida que ligava o aeroporto à cidade num “ziguezaguear” constante. As faixas marcadas no pavimento funcionavam como uma grelha que emprestava escala ao fluido movimento dos veículos. As três faixas originais davam ocasionalmente lugar a quatro, cinco ou seis carros a rodar em paralelo numa normalidade completamente enraizada. O que à partida parecia o caos funcionava perfeitamente de acordo com as leis da física: enquanto houver espaço, passa-se. A princípio estranhei, mas passados os dois primeiros sustos tranquilizei-me. Para lá do caos havia um sistema: o funcionamento era orgânico!

Durante aproximadamente um mês, constatei que o “sistema orgânico” que havia descoberto no trânsito se reflectia nos mais diversos sectores da sociedade. À partida, encontrava-me num país bem diferente, mas sempre que pensava um pouco mais sobre o assunto, era como se me lembrasse do Portugal de há 20 anos atrás, mas mais intenso. Diferente nos hábitos, diferente nos costumes, toda a gente a falar árabe à minha volta. Mulheres completamente cobertas na rua e jamais desacompanhadas (pois pode parecer mal), cinco vezes ao dia o Imã nos altifalantes a inundar as ruas com o chamar para a reza, um estado de emergência imposto, com dezenas de barreiras policiais espalhadas pela cidade concretizando a face mais imediatamente visível do estado autoritário.

Foi assim que tive o privilégio de me encontrar num dos países onde parecia que ia chegar a Primavera Árabe. Para dizer a verdade, várias vezes me vi envolvido em conversas profundas sobre política e sobre o sistema; sobre a figura central do regime, o presidente Abdelaziz Bouteflika, figura chave na cena política recente, em grande parte responsável por trazer alguma estabilidade a um país que estava mergulhado numa violenta guerra civil. A bem dizer, nunca me senti em perigo, embora tenha seguido o conselho da embaixada de Portugal de não sair de casa nos dias de manifestações marcadas (mais vale prevenir que remediar).

 

Ao fim de um mês recebo um telefonema. Era uma quinta-feira como outra qualquer. Do outro lado da linha a minha coordenadora de estágio informa-me que teremos de sair do país. Estava decidido e que iríamos ser recolocados noutro mercado. A AICEP já tinha tido de evacuar outros estagiários de países como a Líbia e o Egipto e, ao que parecia, não o queria ter de fazer novamente. Apanhado de surpresa ainda procurei saber se teríamos opção, mas o meu destino já estava traçado.

 

Em menos de uma semana troquei a Argélia pela Áustria. Da água para o vinho com Portugal no meio-termo. Chegado a Viena, depois de uma experiência tão intensa em Argel onde até o simples apanhar do autocarro constituía uma verdadeira aventura, senti-me imediatamente em casa: estava de volta à Europa familiar. A grande diferença é que aqui tudo funcionava. Aqui, volto a conseguir sair de casa pela manhã e saber quanto tempo levo até ao trabalho…

 

Created By: Miguel Vasconcelos Magalhaes
Published: 24-01-2012 12:00

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