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Função diplomática.

   Mafalda Frazão  -  Embaixada de Portugal   -   Berlin, Alemanha.

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Quando aterrei em Berlim, há quase um ano atrás, de malas e bagagens numa cidade coberta de branco, mal imaginava tudo aquilo que iria descobrir deste lado da Europa. Estava à espera de descobrir uma cidade, um país, mas não estava à espera de descobrir um mundo. Aterrei não só no centro do mundo europeu, mas também no centro do mundo diplomático, e aterrei sem parqueadas!

 

Desde Janeiro de 2007 que estou a estagiar na Embaixada de Portugal em Berlim como adjunta no sector diplomático. Quando digo que aterrei sem parqueadas, é apenas porque esta foi a minha primeira experiência ao nível diplomático e coincidiu justamente com a Presidência alemã da UE, bem como com a Presidência portuguesa da UE, e logo numa das capitais políticas mundiais mais relevantes. Só no primeiro semestre deste ano, tivemos que gerir mais de 30 reuniões com Ministros, 28 encontros com Secretários de Estado, entre tantas outras vistas do Primeiro-Ministro, Deputados e Secretarias-gerais. Esta multiplicação de reuniões, implicou, não só a organização logística e protocolar, mas também elaboração de substância e respectiva preparação de dossiers temáticos, bem como representar Portugal numa série de ocasiões. Aterrar sem parqueadas significou aterrar no centro desta agitação e pôr mãos na massa desde o primeiro dia.

 

Sabia muito pouco sobre o que de facto constituía o trabalho de uma Embaixada e o que sabia, vejo hoje, eram sobretudo mitos gerados por filmes e romances. Existe efectivamente a ideia que ser diplomata significa passar o tempo em viagens exóticas, cocktails e recepções em palácios, bailes e outras galanterias. Tudo isto com o privilégio da imunidade diplomática. Mas a realidade é que o tempo das cortes europeias já passou, e ao contrário da antiguidade, onde os embaixadores eram considerados sagrados (constituindo a sua violação motivo até para guerra), hoje, embora ainda exista imunidade diplomática, esta não confere o direito de ninguém se considerar acima da legislação do Estado - é obrigação expressa do diplomata cumprir as leis, devendo aliás ser um exemplo a  esse nível. Durante este ano tive o privilégio de poder constatar que ser diplomata no século XXI pouco tem a ver com esta visão romântica e é antes de mais uma profissão muito exigente.

 

Mas o que fazem afinal os diplomatas? A verdade é que cocktails e recepções constituem parte integral do “balé” diplomático, mas esse tipo de actividade “festiva” significa acima de tudo trabalho. Muito trabalho. Num só dia, um diplomata, pode ter que estar presente num pequeno-almoço, almoço e jantar de representação. Ao contrário do que se julga, nestes casos não se trata apenas de "mostrar a bandeira", ou seja fazer patente a presença do Estado português, há também que estabelecer importantes contactos, trocar informações e posteriormente elaborar relatórios sobre cada um destes encontros. E entretanto voltar para o gabinete para tratar das restantes tarefas. Para além da função da representação o diplomata tem ainda a seu cargo as funções de negociação e de informação.

Informar neste contexto constitui o dever e a prerrogativa do diplomata de se inteirar por todos os meios lícitos das condições existentes e da evolução dos acontecimentos de um determinado Estado e comunicar a este respeito para Portugal. Na prática isto significa neste caso estar presente em reuniões nos diferentes Ministérios federais da Alemanha, monitorizar a imprensa local, relacionar-se com diplomatas e funcionários de diversos serviços e elaborar telegramas informando o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa.

Faz ainda parte das funções diplomáticas, a negociação, que consiste na manutenção de relações com o objectivo de concluir um acordo. O diplomata negocia em nome do Estado, com o propósito de defender os interesses de Portugal. Nas embaixadas bilaterais, como é o caso da Alemanha, as negociações são menos frequentes, mas aumenta o volume de informação a produzir e cresce o esforço de defesa dos interesses nacionais em temas concretos, como o comércio, o investimentos, acordos de cooperação tantos outros.

A diplomacia é sem dúvida uma actividade nobre e gratificante, mas é preciso não esquecer que faz parte integrante desta profissão o lado burocrático, que é bem menos “romântico”. O dia-a-dia passa também pelo infindável processamento de informação quase todo ainda feito em papel, a elaboração dos inesgotáveis formulários, ofícios e telegramas. Faz igualmente parte o tratamento de dossiers tão interessantes como a “resolução do Tribunal dos Direitos do Mar sobre a conservação da formiga vermelha nos solos desertificados no Sudoeste Africano”, bem como os respectivos processos que se amontoam desde 1967 no arquivo, e que vêm quase sempre acompanhados de mais siglas (UNFCC, DSE, MNE, PM, UNCFC) do que palavras propriamente ditas. Desmotivante, pode também ser, a rigidez de determinadas estruturas hierárquicas e os constantes choques de interesses que consecutivamente travam o desenvolvimento rápido dos mais variados processos. Infelizmente constrangimentos como estes fazem parte da profissão e tornam o diplomata, mais vezes do que o necessário, num perfeito burocrata.

No cômputo geral, creio que ser diplomata é uma tarefa nobre e gratificante sobretudo pela diversidade de situações e oportunidades que proporciona, mas é uma profissão também muito exigente, que comporta uma grande dose de sacrifício pessoal e em que o peso da responsabilidade é muito grande.

Quando aterrei de malas e bagagens em Berlim, não podia imaginar o mundo que esperava por mim. Dentro de um mês aterro em Lisboa. Aterro com as mesmas malas e bagagens. Mas agora com a certeza que as levo bem mais cheias do que quando parti.

Created By: Teresa Jeremias
Published: 18-01-2008 17:57

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