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A minha jornada na Guiné-Bissau

Mariana Pereira | C23 | IF-CPLP | Bissau, Guiné-Bissau

C23 Mariana Pereira

Quando cheguei a Bissau a noite já tinha caído e o calor não era como o tinha imaginado assim que soube que viria para Bissau. Lembro-me bem da temperatura, de pensar que era melhor habituar-me, pois não se pode fugir daquele calor. À medida que ia percorrendo parte da cidade só conseguia repetir para mim própria: Estou em África! Estou em África!

Era, sem dúvida, um momento importante na minha trajetória, tinha-o desejado várias vezes. Estar neste continente era continuar uma herança familiar. Em criança o meu avô e o meu pai partilhavam histórias sobre Angola, com muita nostalgia e saudade nos rostos e, a cada história contada, a minha vontade de pisar o continente africano aumentava. E, depois de quase duas décadas ali estava eu, a ter finalmente a oportunidade de vivenciar o dia a dia num país tão diferente de todos por onde já tinha passado. Inicialmente não achei que se distanciasse muito do que a minha mente tinha criado.

Bissau é um contraste de cores, a terra laranja e árida e o verde das árvores dão asas a uma paisagem atípica. Estar em Bissau é ouvir barulho praticamente por toda a parte, porque os guineenses gostam de se exprimir incessantemente. É ir a festas onde se ouve música com ritmos muito rápidos e ver todas as pessoas a dançar com uma vontade que não acaba. Mas Bissau, como todas as cidades, também é feita de pequenos desafios diários como aprender a andar em ruas precárias, ver lixo espalhado e crianças que têm de vender na rua, ficando sujeitas a situações de risco.

Mas eu não estava preparada para o que viria a acontecer nos dias seguintes. Assim que comecei a conviver com pessoas que partilham a minha cor de pele apercebi-me de pequenos comentários desconcertantes e depreciativos sobre a natureza dos guineenses. Pareciam sofrer de algum tipo de amnésia, esquecendo-se de onde estavam. Percebi que algumas pessoas tinham um modo de pensar muito diferente do meu e ao qual não estava disposta adaptar-me. Esta perceção começou a gerar em mim uma sensação de desconforto que, por sua vez, se transformava em inquietude. Soube que teria de fazer alguma coisa para combatê-la.

Isso levou-me a procurar refúgio noutros lugares e, consequentemente, a sair do que eu apelidei de “bolha branca”. Desde o início que sabia que não estava nos meus planos ficar neste círculo pautado por preconceitos, designadamente machismo e racismo. Decidi criar laços com quem realmente representava aquele país e tirar as minhas próprias conclusões.

Aprender o crioulo da Guiné-Bissau pareceu-me um passo essencial para conseguir entender melhor a essência dos guineenses e sentir-me mais próxima deste povo. Concluí que o ideal seria aprender com alguém que estivesse interessado em melhorar o português que, apesar de ser a língua oficial do país, não é muito usado. Assim, para além de estar a aprender uma coisa nova estava a ajudar alguém.

Essa pessoa estava bem à frente do meu nariz. Alguém que eu via todos os dias, pois fazia a segurança do escritório onde estagiava. Tinha sido sempre prestável e percebi que desejava saber mais do que o seu país lhe conseguiu ensinar. Depois de termos trocado algumas palavras ele confessou-me que queria falar mais em português. A partir desse momento começou um processo de diálogo cultural. Soube que viveu sempre em Bissau, que nunca viu o mar azul, apenas a água poluída que ronda o porto da sua cidade. Aos poucos percebi que a vida dele era feita de muitos sacrifícios mas, mesmo assim, encontrava contentamento nela. Para ele o mais importante é estar em paz, como ele diz: “não gosto de confusões”. As nossas conversas aconteciam, por vezes acompanhadas de caju, fruto abundante nesta terra. Percebi que as nossas diferenças eram enormes. Que os nossos mundos "normalmente" não se cruzariam mas, por alguma razão, ali estávamos, sentados debaixo de uma palmeira a partilhar as nossas histórias.

A partir daí senti-me entre dois mundos. O meu crioulo ia melhorando, bem como a sensação de que estava cada vez mais imersa na cultura da Guiné-Bissau. Fui conhecendo amigos e familiares do Manuel e após várias conversas percebi que a Guiné é um paraíso, mas ao mesmo tempo não o é. E nunca uma contradição fez tanto sentido para mim.  Vive-se na angústia de quem sabe que podia ter uma vida melhor mas, quando dizem que algo não está bem dizem: “Ahhh a Guiné-Bissau… ” E sentimos um descontentamento normalizado, um cansaço de quem não vê melhorias há demasiado tempo.

Foi esta amizade que me ajudou a ultrapassar o racismo e preconceito. Mas, mais do que isso, abriu-me a porta para o que há de melhor e mostrou-me que a única forma de sobreviver num país que parece esquecer-se dos seus é através do companheirismo e da solidariedade. Porque como tanto se diz por aqui: “Estamos juntos”.

Obrigada a todos os que me fizeram sentir amparada e em casa.

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Created By: Mariana Mesquita Pereira
Published: 05-04-2021 9:30

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