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Desafios da Investigação Científica: cooperação dos setores público e privado

Anita Nunes Leite e Maria Francisca Sardinha | C22 | Universidade de Suffolk | Reino Unido

 

 

A seguinte dissertação tem como objetivo apresentar, mediante prévia pesquisa e avaliação, a opinião das estagiárias Anita Leite e Maria Francisca Sardinha perante o tema supramencionado.

A investigação científica, independentemente do setor e da indústria, existe para melhorar a qualidade de vida das pessoas. A mesma resulta num conjunto de vantagens para os indivíduos e para as sociedades, como beneficiários da pesquisa, através de uma cooperação entre os investigadores e os públicos. Relevância, confiança, responsabilidade e transparência são os pilares da relação entre pesquisa e sociedade.

A investigação científica, como a arte ou a música, segue os princípios aplicados socialmente num determinado período temporal, isto é, mediante regras, leis e normas do país/local no qual está a ser executada a investigação e durante o fragmento de tempo necessário para ser possível determinar uma conclusão. Desta forma, uma investigação vem dar resposta às necessidades criadas pelo ser-humano e a partilha de resultados por parte da comunidade científica, o que potencia o desenvolvimento e a globalização da ciência.

No entanto, essa partilha de conhecimento tem de ser feita de forma normalizada para que em cada artigo científico sejam claramente estabelecidos os parâmetros a seguir. Seguindo a estrutura da Elsevier, uma das mais conhecidas editoras a nível mundial, um artigo científico tem de conter introdução, os métodos, os resultados e a discussão. Isto é tanto aplicado na investigação realizada no setor público, como no setor privado, sendo que estas divergem na forma como são financiadas, por fundos públicos ou privados.

 

Caracterização da investigação científica no Reino Unido

De acordo com os resultados publicados no relatório dos gastos em pesquisa e desenvolvimento de 2016, no Reino Unido (Office for National Statistics 2018), o gasto total em Investigação & Desenvolvimento (daqui em diante designado por I&D) foi de 33,3 mil milhões de libras em 2016. O setor tem vindo a crescer de 1,4 para 22,2 milhares de milhão de libras desde 1990 correspondendo a um crescimento de 4,1%.

De acordo com a Figura 1, o setor que contribui mais para I&D foi o setor empresarial com 67% (22,2 mil milhões de libras) em 2016, sendo que dentro deste setor, se considera a indústria farmacêutica (4,1 mil milhões) e a indústria automóvel (3,4 mil milhões). A seguir, está o ensino superior, com 24% e que corresponde ao segundo maior setor com mais gastos em I&D. No entanto, o governo e as instituições públicas somam apenas 7%, onde são utilizados maioritariamente fundos públicos provenientes dos conselhos.

Estes conselhos são repartidos consoante a área de especialização, perfazendo um total de sete, sendo estes designados por Arts and Humanities Research Council (AHRC), Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC), Economic and Social Research Council (ESRC), Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSRC), Innovate UK, Medical Research Council (MRC), Natural Environment Research Council (NERC), Research England e Science and Technology Facilities Council (STFC). São constituídos por parcerias entre empresas, o Governo e organismos públicos como centros de investigação e universidades (UK Research and Innovation, 2018).

 

 


Figura 1- Distribuição dos gastos em I&D por setor no Reino Unido

 

Assim, estas sinergias são utilizadas como ferramentas para atingir os objetivos do Governo no desenvolvimento industrial. Estes fazem parte de um plano a longo prazo para aumentar a produtividade e poder aquisitivo do Reino Unido. Um deles constitui o Industrial Strategy Challenge Fund, que tem como objetivo investir 4,7 mil milhões de libras, em 4 anos, em projetos com uma forte componente em investigação que visam dar resposta aos desafios da atualidade e do futuro.

Este tipo de iniciativas direcionam a investigação científica para um campo fortemente direcionado para a indústria. Outro tipo de fundo garantido pelo Governo corresponde ao Global Challenges Research Fund, no qual, visa a partilha de conhecimento científico entre o Reino Unido e os outros países desenvolvidos, direcionado para o desenvolvimento sustentável (UK Research and Innovation, 2018).

Para concluir, o setor privado, sem benefício líquido, corresponde a todas as organizações não-governamentais como instituições de caridade que angariam fundos para apoiar a investigação no campo da saúde e clínico.

 

A investigação científica no setor público no Reino Unido

A investigação científica financiada pelo Governo é feita com a alocação de fundos públicos através de diversas instituições e parcerias. UK Research & Innovation (daqui em diante designada como UKRI) foi criado pelo Higher Education and Research Act 2017 que se encontra operacional desde abril de 2018 (The Royal Society, 2017). Corresponde a uma cooperação estratégica que engloba os 7 Conselhos de Investigação, Innovate Uk e Research England.

 


Figura 2- Esquema da alocação dos fundos públicos provenientes do Governo para I&D (The Royal Society, 2017)

 

O UKRI tem como objetivo a gestão do financiamento público, de forma concisa e equilibrada através de duas maneiras distintas e complementares – uma alocada pelos sete Conselhos de Investigação e a outra como blocos de financiamento para as Instituições de Ensino Superior. Este sistema é definido como sistema de suporte duplo (The Royal Society, 2017).

Para melhor entendimento, explicamos em baixo qual a drive de cada organização.

Innovate UK é uma organização orientada maioritariamente para o setor empresarial. Trabalham conjuntamente com as outras entidades para apoiar a inovação e potenciar o crescimento e desenvolvimento das empresas.

Research England é responsável pelo financiamento, compreensão e envolvência com as instituições de Ensino Superior designadas por English Higher Education Institutions (HEIs). As instituições do Ensino Superior desempenham um papel distinto na investigação científica e na inovação. A existência de diversas estratégias por parte de cada universidade aliado à cooperação com terceiros vai complementar e diversificar o sistema de suporte duplo.

National Academies como apresentado na Figura 2 auxiliam o Governo na determinação de prioridades, recebendo os fundos para programas considerados chave, incluindo o suporte de excelentes investigadores.

 

A investigação científica no setor privado no Reino Unido

Na investigação científica não é, de todo, notória a barreira que separa a investigação pública da privada, pois há vários fatores que se devem ter em consideração aquando da distinção destes dois setores.

Os fatores principais são a iniciativa e o fundo monetário. É importante distinguir se iniciativa, isto é, a vontade primordial de realizar uma investigação provém de uma empresa ou de uma Organização Não Governamental (daqui em diante designada por ONG). No caso de ser uma empresa de uma determinada indústria a querer realizar uma iniciativa, a mesma pode recorrer a um centro de investigação privado ou a uma universidade pública. No primeiro caso, a investigação é determinada por investigação científica privada, visto que a iniciativa provém de uma empresa privada que procurou um outsourcing privado. No segundo exemplo, trata-se de uma investigação público-privada, visto que, apesar da empresa ser privada, recorre a uma instituição pública (universidade). O mesmo acontece quando as ONG, consideradas organizações públicas, recorrem a centros de investigação privados ou públicos. Note-se que é bastante raro uma ONG recorrer a um centro de investigação público, visto que não é suposto a mesma disponibilizar fundos para a contratação de serviços. Em relação ao fundo monetário, tal como já foi parcialmente referido acima, este pode resultar de uma empresa ou de instituições públicas.

No entanto, no Reino Unido e, regra geral, na maior parte dos países, o que acontece é que empresas privadas recorrem a universidades ou centros de investigação públicos para realizar as suas pesquisas, o que resulta numa parceria público-privada. Quando esta situação ocorre, a empresa contribui com um fundo monetário para a realização da investigação. Neste caso, cabe à universidade fazer a gestão do dinheiro da forma que mais lhe convém, podendo decidir se os investigadores são profissionais subcontratados ou se são alunos da própria faculdade a realizar a investigação. Outra situação comum é a permuta de equipamentos que pode ocorrer quando os centros de investigação ou institutos alugam os equipamentos de forma a receberem uma transação monetária por parte de investigadores que queiram usufruir dos mesmos.

Um dos objetivos da University of Suffolk (instituição de acolhimento de estágio) para o ano de 2019 é a permuta de equipamentos para que os fundos da universidade sejam não só das propinas dos alunos, como também, do aluguer de equipamentos aos agentes interessados.

 

Opinião Pessoal

De um modo geral, a investigação científica é cada vez mais uma cooperação entre instituições privadas, governos, universidades e associações. Do ponto de vista do setor industrial o importante é que essa investigação seja aplicada na comercialização de novos produtos ou novas tecnologias.

A criação de patentes é um processo bastante importante no setor privado mas também bastante competitivo. Os departamentos de I&D têm geralmente objetivos traçados desde o início. A presença de erro neste tipo de investigação é bastante comum, uma vez que o estudo é feito à volta de um determinado resultado pré-determinado. No setor público, o conhecimento é maioritariamente partilhado e possui uma maior liberdade do ponto de vista da construção do método e dos objetivos do estudo. Porém, com a escassez de fundos públicos, a parceria com empresas tem vindo a crescer, o que implica uma maior imposição para atingir determinados resultados.

Um ponto cada vez mais importante na investigação científica no Reino Unido é a partilha de resultados entre a comunidade científica de diferentes países e a sua cooperação para encontrar soluções para determinados problemas mundiais. Sendo ou não uma consequência gerada pela saída do Reino Unido da Comunidade Europeia, essa partilha tem de existir de maneira a permitir a inovação e o desenvolvimento.

Na Universidade de Suffolk, até ao momento, a investigação é feita com recurso a fundos públicos uma vez que não foram estabelecidas parcerias com nenhuma empresa. No entanto, o objetivo passa por tentar criar essas parcerias e consequentemente estimular o desenvolvimento da região.

Da nossa experiência pessoal, a investigação científica deve ser tanto direcionada para uma determinada aplicação como para a simples tentativa de explicação de determinadas teorias baseadas na observação. A aproximação entre os centros de investigação e a indústria permite a criação das condições necessárias para o crescimento e a inovação.

No entanto, tem de haver um controlo, tanto a nível da gestão dos fundos públicos e privados, como do controlo do risco económico adjacente.

 

Created By: Anita Nunes Leite
Published: 14-02-2019 11:05

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