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A revanche das mulheres na arquitetura

Ana Catarina Oliveira | C22 | CURB – Center for Architecture and Urbanism | Macau, China

Cláudia Albuquerque Martins | C22 | Bach Arquitectes | Barcelona, Espanha

Segundo os registos, é em 1894 que se gradua a primeira mulher arquiteta, nos Estados Unidos. Fê-lo no MIT, e o seu nome é Marion Mahony Griffin (1871-1961). No entanto, as mulheres têm vindo a participar ativamente na arquitetura há já muitos séculos, com nomes como as pioneiras Katherine Briçonnet (1494-1526) e Lady Elizabeth Wilbraham (1632-1705), destaques na contribuição para o excelente trabalho da disciplina e no exemplo da força do talento e convicção femininos.

Desde então, as mulheres têm vindo a conquistar mais direitos, espaço, lugar nas universidades e reconhecimento pelos seus projetos.

Nomes como Denise Scott Brown, Julia Morgan, Signe Hornborg, Charlotte Perriand, Lina Bo Bardi, Gae Aulenti, Benedetta Tagliabue, Anna Heringer e, mais recentemente Kazuyo Sejima e Zaha Hadid ganharam um grande destaque, e muitas das suas obras são lembradas como estando na vanguarda, exemplos exímios de arquitetura. Esta lista ilustre é, ainda assim, pequena relativamente à dos homens que alcançaram o mesmo status, apresentando a lista do Pritzker apenas Hadid e Sejima em nome próprio, e Carme Pigem como parte da laureada firma RCR Arquitectes, na premiação anual, que celebra já 39 anos. Também as capas das principais publicações de arquitetura, desde sempre deram principal destaque a nomes masculinos.

Considerando que, atualmente, a percentagem de mulheres que estudam arquitetura é superior à dos homens, mas o número das que completam a licenciatura e a exercem é inferior, e que testemunhos como os de Zaha Hadid revelam que as mulheres foram, sem sombra de dúvida, as suas melhores alunas. Contudo, concluída a graduação, a maioria simplesmente desviou-se da profissão e a pergunta coloca-se: o que está na origem deste fenómeno?

Segundo uma pesquisa publicada pela revista Architecture Review em 2016, sobre a situação das mulheres na Arquitetura e Urbanismo, realizada a 1152 arquitetas do Reino Unido, Europa, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Ásia e de outras partes do mundo, para 67% a indústria da arquitetura e construção ainda não aceita a autoridade da mulher na área e 47% destas não foi promovida durante os anos de trabalho em empresas. Juntam-se, ainda, os casos de assédio ou discriminação sexual durante a carreira, seja em reuniões com clientes, engenheiros ou outros arquitetos, ou durante o próprio percurso académico, num perturbador valor de 72% das entrevistadas.

Em Portugal, as mulheres estão, também, em maioria quando se contabilizam as entradas nas universidades, e representam 44% dos profissionais inscritos na Ordem dos Arquitetos. Contudo, esta crescente e efetiva feminização da profissão ainda não significa igualdade, e várias ativistas pedem e defendem a necessidade de políticas de género integradas nas cidades, em nome da diversidade, coerência, equilíbrio e boa prática.

Aproveitando o contexto geográfico do estágio INOV Contacto, para refletir sobre este mesmo tema, as primeiras mulheres a licenciarem-se em Espanha como arquitetas foram: Matilde Ucelay, em 1936, e Rita Fernández, Queimadelos, em 1940, na Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Madrid. A título de curiosidade, a primeira arquiteta em Portugal viria a formar-se dois anos depois, em 1942, natural da região do Algarve e de seu nome Maria José Estanco. De forma quase caricata aos olhos de hoje, a imprensa portuguesa intitulou a notícia como o primeiro “diploma de Senhora Arquitecto”.

Cláudia Albuquerque Martins - Barcelona, Espanha

Cláudia Albuquerque Martins - Barcelona, Espanha

Atualmente, e focando-nos agora no caso específico da Catalunha, poderemos destacar nomes como Carme Pinós, Benedetta Tagliabue, já anteriormente mencionada, e Carme Pigem. Curiosamente, grande parte dos melhores projetos destas três arquitetas fazem parte de duplas ou de equipas de arquitetura que integram.

A arquiteta Carme Pigem foi a última a receber o prémio Pritzker, em 2017, juntamente com os seus colegas Rafael Aranda e Ramón Vilalta do estúdio RCR Arquitectes, conquistando, assim, o segundo prémio Pritzker de Arquitetura para Espanha, o terceiro atribuído a uma mulher e, igualmente importante, o terceiro prémio Pritzker atribuído a um estúdio/grupo de arquitetos.

É vulgar a tendência para competirmos por posições de destaque e/ou compararmos quem terá maior ou menor protagonismo. No entanto, a arquitetura é uma atividade multidisciplinar e de elevado nível de exigência, que requer a intervenção de várias áreas de conhecimento e, também por isso, requer muita cooperação, ou seja, um grande trabalho de equipa. Portanto, retirando o atrás e substituindo-o por ao lado, podemos dizer que ao lado de um bom arquiteto/a há sempre outros grandes e bons arquitetos/as e também uma grande e boa equipa, independentemente de serem homens ou mulheres.

Ana Catarina Oliveira - Macau, China

Ana Catarina Oliveira, Macau, China

Em Macau, por exemplo, assiste-se a uma representação deste preciso fenómeno, encontrando-se cada vez mais nomes de mulheres a assinar projetos de grande influência e dimensão, bem como a ocupar cargos mais elevados em conselhos, instituições e associações de arquitetura.

Destacam-se as arquitetas Mimi Cheung, Joy Choi Tin Tin e Maria José Freitas, vencedora do prémio ARCASIA AWARD em 2002 e membro de organizações como a AAM - Associação de Arquitetos de Macau, UIA - International Union of Architects e AAHM - Asian Academy for Heritage Management.

Se em décadas passadas eram nomes masculinos os mais referidos relativamente à génese e definição do traçado urbano da Região Administrativa Especial de Macau e suas obras mais emblemáticas, grande parte destes portugueses, atualmente encontra-se um equilíbrio mais assegurador de que o papel e influência da mulher na arquitetura tem vindo a crescer e não faz tenções de abrandar.

Julgamos, por isso, que a verdadeira revanche das mulheres na arquitetura é a conquista ao direito da igualdade pelas mesmas oportunidades de trabalho, credibilidade, condições e evolução profissional, e esta conquista não é exclusiva do mundo da arquitetura. É um caminho que ainda está a ser percorrido e que se trata apenas de uma questão de tempo até ser concluído, porque contra factos não há argumentos e quando existe igual qualidade e determinação não há preconceito ou discriminação que permaneça para sempre.

Mais uma vez, este caminho não pode ser feito nem tratado como um caso isolado, mas sim como um todo, como uma chamada de atenção contínua à sociedade civil, culturas e mentalidades que possam ainda causar resistências à nossa evolução e equilíbrio social além-fronteiras.

Verifica-se, assim, uma urgência em abandonar a ideia e, infelizmente, a ainda realidade, de que as mulheres não apresentam, para o público em geral e para os seus parceiros, uma visibilidade equivalente à dos homens.

Acreditamos e esperamos que a nossa geração de arquitetas e arquitetos seja a última a escrever e a ler um artigo intitulado "A revanche das mulheres na arquitetura" e a ver nele ainda algum sentido, dando por sua vez espaço para discussões que já não necessitem de referência ao género dos profissionais, mas sim ao trabalho efetivamente produzido.

Created By: Ana Catarina de Ascensão Oliveira
Published: 08-02-2019 15:49

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