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Calçado Made in Portugal conquista segmento de luxo...Reino Unido, Espanha e Itália. E agora?

Carolina da Silva Andrade Gonçalves | C21 | Butterfly Twists | Londres, Reino Unido

- "Ó pai anda lá, vamos embora!". E lá estava ele mais uma vez perante uma montra de sapatos e às vezes dizia: “Olha estes foram feitos por nós”.

Uma vida a respirar pele, uma infância a brincar entre sapatos. Só quem conhece profundamente uma fábrica de calçado percebe do que falo. Cresci rodeada de sapatos e de sapateiros, ou melhor dizendo, profissionais do calçado. Os meus pais têm uma fábrica de corte e costura de calçado, os meus tios trabalham no calçado, os pais das minhas amigas trabalham em calçado ou na produção dos seus componentes. Toda a minha região se sustenta no calçado!

O meu primeiro emprego foi como agente de calçado. Tal ajudou-me a conceber uma visão mais adulta e internacional deste mundo que todos os dias colocamos nos pés.

Há tanto que mexe em torno desta indústria. Pensem em tudo! Materiais, componentes, máquinas, peças para máquinas, mecânicos, modeladores, caixas, lojas, transportadoras, gaspeadeiras, cortadores, design, tecnologia, moda, tendências, e tantos, tantos pés diferentes para calçar!

Não há dúvida nenhuma de que é de Portugal que partem grande parte dos melhores pares de sapatos que caminham pelo mundo. Em 2016 as exportações alcançaram 1 923 mil milhões de euros [1].

O mundo do calçado português tem vindo a crescer, mas estará a evoluir a um ritmo equivalente? Estará o mundo do calçado a abraçar a tecnologia de ponta adequada? Estará o país a adotar medidas necessárias para captar e fixar novos talentos? Estarão os patrões e gestores das fábricas abertos a uma nova visão, mais jovem, desta indústria e a novas formas de fazer calçado?

É muito comum nesta indústria encontrar empresas familiares, que passam de geração em geração. A meu ver, não desfazendo do know-how que se deve beber da experiência e do conhecimento empírico dos que andam neste mundo há anos, é essencial que as empresas invistam não só em tecnologia mas também em novos métodos e procedimentos que os “mais jovens” possam implementar.

Tal como o novo presidente da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos) Luís Onofre, defende, é necessário investir nos jovens, no marketing, no design, na digitalização dos processos, no foco no cliente e na personalização da experiência de calçar [2].

É necessário inovar e desmistificar, entre os jovens, estigmas associados à profissão, tornando os centros de formação mais atrativos e dissolvendo o conceito de que uma licenciatura é a única forma de vingar profissionalmente.

Há que transformar a imagem do calçado em Portugal, não só aos olhos de quem nos vê de fora mas também aos olhos de quem o vê por dentro. Já que temos a qualidade tenhamos também o orgulho. Que seja a indústria mais sexy para os de dentro também!

Fazer sapatos não é difícil, mas fazer sapatos de qualidade não é fácil!

Durante o meu estágio na Butterfly Twists, empresa de calçado feminino (com foco em ballerinas), em Londres, tive a oportunidade de apurar a minha perceção internacional sobre esta indústria. Neste estágio experienciei outras áreas desta atividade – a gestão da marca, o marketing e o apoio ao cliente.

Tendo tido a oportunidade de lidar com a experiência do cliente apercebi-me de que, de facto, a qualidade e tempo de vida do sapato, são cruciais para o sucesso da marca. Mas é também graças ao design, ao marketing e aos esforços comerciais, que esta tem vindo a crescer. O sucesso não assenta só na qualidade do produto, no entanto deverá ser este o primeiro princípio.

De acordo com o documento Facts & Numbers [3] emitido pela APPICAPS, o Reino Unido representou em 2016 apenas 7% do total de exportações. Este número, não sendo muito expressivo, revela a tendência de se produzir calçado em países associados a mão-de-obra barata, como a China, Filipinas e outros países asiáticos. Nomeadamente, quando nos referimos a sapatos de um segmento de preço baixo-médio, como é o caso da Butterfly Twists.

Por outro lado quando nos referimos a calçado do segmento alto ou de luxo, o calçado português deixa uma pegada mais forte. A qualidade tem um preço e o calçado português é sinónimo de qualidade. Vejamos marcas, como a mais recente “Alexa Chung” [4], que escolheu o cantinho no extremo sudoeste da Europa para produzir os seus sapatos, ou como “Isabel Marant”, cujos sapatos têm mão portuguesa. Além disso, existem cavaleiros em Espanha com botas que provavelmente já dormiram na fábrica dos meus pais e tantas outras marcas que têm “Portugal” no seu livro de agradecimentos, ou que deviam ter.

Mesmo quando o sapato não é produzido na sua totalidade em Portugal, é muitas vezes dele que partem gáspeas (parte do sapato que não inclui a sola e a palmilha), solas, saltos e outros. De facto há uma grande parte que sai incompleta de Portugal e que é terminada lá fora. Seja pela inexistência de tecnologia adequada, seja pelo custo associado ou pelo simples facto de não pretenderem a etiqueta “Made in Portugal”.

Há, no entanto, marcas com passaporte português que têm vindo a calcar solos internacionais, refiro-me marcas como a “Fly London”, bem presente no Reino Unido, e como a "Eureka", que tem vindo a abrir mais lojas, contando já com cerca de 30. E também a marcas como a “Josefinas” que provam haver ainda espaço para novas marcas e profissionais.

Se a minha vida me levará de novo ao mundo do calçado, não sei, mas com certeza que nunca deixará de ser uma arte enraizada em mim.

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[1] In: “Novo líder do calçado promete campanha para dar trabalho aos jovens” (05 de Maio de 2017) (Neves, Rui). Jornal de Negócios. Acedido a 23/06/2017, em [http://www.jornaldenegocios.pt/economia/emprego/detalhe/novolider-docalcado-promete-campanha-para-dar-trabalho-aos-jovens?ref=HP_DestaquesPrincipais], (adapt.).

[2] In: “Novo líder do calçado promete campanha para dar trabalho aos jovens” (05 de Maio de 2017) (Neves, Rui). Jornal de Negócios. Acedido a 23/06/2017, em [http://www.jornaldenegocios.pt/economia/emprego/detalhe/novolider-docalcado-promete-campanha-para-dar-trabalho-aos-jovens?ref=HP_DestaquesPrincipais], (adapt.).

[3] APPICAPS (2017), Facts & Numbers, 2017, (May 2017). Acedido em 23/06 [https://www.apiccaps.pt/publications/facts--numbers/126.html], (adapt).

[4] Alexa Chung – marca de moda britânica com calçado produzido em Portugal e reconhecido como tal. Coleção disponível em: [https://www.alexachung.com/shoes/]

Created By: Carolina da Silva Andrade Gonçalves
Published: 18-01-2018 18:33

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