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Uma conversa entre Engenheiros INOV Contacto na ALTRAN - O C24 Adriano Pires entrevista o C19 Estevão Gonzalez e partilham experiências e pontos de vista

Adriano Pires | C24 | ALTRAN | Madrid, Espanha

Entrevista do C24 Adriano Pires ao C19 Estevão Gonzalez

Estevão, fala-nos um pouco de ti.

Chamo-me Estevão Gonzalez cresci na Margem Sul, estudei Engenharia Eletrotécnica e Automação no ISEL e acabei a licenciatura na Republica Checa em 2014 (Erasmus). Nesse verão recebi pelo Facebook um link para a página das candidaturas da edição C19 do INOV Contacto. Como tinha adorado o semestre no estrangeiro candidatei-me imediatamente e 6 meses depois, com 27 anos, chegava a Madrid para iniciar carreira no ramo da Engenharia Aeronáutica, sem saber nada de aviões.

Tendo eu conhecido o INOV Contacto através do meu irmão que, numa edição anterior, foi para S. Francisco, CA – USA, também sentiste aquele murro no estômago quando viste que ias estagiar a cerca de 500 km de casa?

Sim! Nos dias do Campus aprendi, fiz amizades e diverti-me imenso. No fim estávamos sentados, a assistir ao recital de países e empresas e às reações dos colegas. Ao meu lado estava sentado o Luis, triste porque lhe tinha calhado a Ilha do Sal – o tipo de destino com o qual eu sonhava há meses. Chegou a minha hora: chamam o meu nome e o do Fred, um desconhecido que agora considero um velho amigo. Levantámo-nos e recebemos a notícia. O Fred festejou e eu caí na cadeira com a maior desilusão da minha vida. Logo a seguir, o Luis fez-me saber da inveja que ele tinha da minha sorte e eu tentei, sem sucesso, fingir um sorriso.

Apanhei o voo da TAP, Portela-Madrid, dia 18 de fevereiro de 2015 com uma guitarra às costas e uma pequena bandeira de Portugal. Seguiram-se meses de grande descoberta e crescimento pessoal. Nas duas primeiras semanas a minha perspetiva tinha dado uma cambalhota e eu tinha entrado numa das épocas mais felizes da minha vida. Madrid é uma cidade fantástica que eu não conhecia (apesar de a ter visitado antes) e os inúmeros amigos que aqui fiz, fizeram com que a sentisse como uma segunda casa.

Este estágio foi, na prática, a minha primeira experiência profissional no ramo do meu curso e nunca imaginei que ia estar num escritório altamente moderno com outras 100 pessoas, diariamente, a trabalhar em projetos de inovação, alguns deles bastante futuristas. Também foi uma surpresa para ti e como te adaptaste?

Foi surpresa em cima de surpresa e, na realidade, continua a ser. Tenho que admitir que, ao início, a adaptação não foi fácil: comecei por trabalhar em Controlo de Sistemas, numa equipa de engenharia onde se falava espanhol e que trabalhava para a Airbus – Engenharia ao mais alto nível. Ora bem, o meu espanhol era fraquíssimo e os meus conhecimentos sobre aviões resumiam-se a curiosidades... Senti-me como um peixinho de aquário atirado para o tanque dos tubarões famintos. Achava até que, talvez, nem merecesse tal oportunidade, à luz dos meus resultados académicos. Pedi trabalho e dei o meu melhor, ninguém podia dizer que trabalhava mais do que eu ou que eu não tinha dado a devida atenção a alguma tarefa. Fiz bons amigos entre os colegas de trabalho e o meu espanhol começou a desenvolver-se. Aos poucos fui conquistando o meu lugar como membro legítimo da equipa e dois meses antes de o estágio chegar ao fim, estava a assinar contrato com a ALTRAN. Olho para esses dias cheios de incerteza, euforia e ansiedade com muita nostalgia.

Entretanto o C19 acabou, os meus amigos voltaram para Portugal e depois espalharam-se pelo mundo.

Ter a possibilidade de trabalhar diretamente com investigação e prototipagem de aviões e novos conceitos é, para mim, absolutamente fascinante por esta área ser regularmente considerada o suprassumo das engenharias. Fala-nos um pouco de projetos que desenvolveste, qual o desafio a superar e a tua contribuição direta para o mesmo.

Desde que me contrataram que trabalho em Engenharia de Sistemas no ramo da aeronáutica, mais especificamente, Model-based Systems Engineering. Quando comecei, há 5 anos, era uma área pouco desenvolvida, e apenas aplicada de maneira integral, por instituições como a NASA e afins, enquanto agora é muito procurada em várias indústrias como a Aeronáutica, Automóvel, Energias, etc. Foi, portanto, uma batalha constante num campo em crescimento exponencial e alteração contínua. No entanto se tivesse que escolher, talvez apontasse para dois projetos:

O primeiro foi para um avião chamado A320 P2F, uma alteração dos atuais A320 a avião de mercadorias. Este projeto requeria competências que ninguém na equipa de quatro pessoas tinha... Ganhámos o projeto e eu no início senti-me atirado aos leões. Foram meses de muito stress e angústia, entre batalhar no trabalho e estudar em casa, mas acabou em sucesso e levou a outras parcerias nos meses seguintes. Foi uma vitória para mim e deu-me ampla visibilidade na empresa.

O segundo é aquele em que estou agora. Em setembro do ano passado, abriu em Madrid uma startup americana de aeronáutica, chamada Skydweller Aero INC, apoiada financeiramente por grandes gigantes da engenharia e por entidades governamentais. O objetivo da empresa é desenvolver o primeiro avião de “voo perpétuo”, um drone gigante, 100% elétrico e movido a energia solar, capaz de voar durante meses sem nunca aterrar para recarregar baterias. É um desafio de uma vida, realmente inspirador e, caso termine em sucesso, será uma revolução na indústria. Um dos parceiros é a ALTRAN e eu fui um dos destacados para este projeto, logo desde o início, com algum receio e sem saber naquilo em que me estava a meter. Nunca aprendi tanto em tão pouco tempo e nunca trabalhei tanto na minha vida, uma média de 60 h por semana, pelo menos. Neste momento lidero uma equipa de 6 pessoas, a caminho de 7 e nem sequer fico chateado quando trabalho até o sol nascer, a única coisa que peço é que me deem uns dias para ir ao Algarve...

Cinco anos depois da tua experiência INOV Contacto continuas cá por Madrid – certamente mostraste aos nuestros hermanos que no nosso pequeno país se formam pessoas altamente capazes. O que andas a fazer desde então? Continuas ligado à ALTRAN, apesar de teres mudado de escritório, certo?

Não é que eu ache que represento Portugal, isso seria algo arrogante. No entanto sei que, até certo ponto, um povo é julgado, quase sempre injustamente, em função daqueles que emigram e, sendo sincero, é algo em que às vezes penso. Quero dar o meu melhor e não quero desapontar. Se estou ou não a fazer um bom trabalho nesse campo, isso já é mais difícil julgar.

Pois é, mudei de escritório e trabalho diretamente com o cliente, como já fiz antes com a Airbus e a Boeing. Estou farto de passear entre um escritório e outro mas, neste momento, não passeio muito e agora o meu escritório é o meu quarto...

Em relação à ligação à ALTRAN sim, por enquanto ainda sou consultor e digo “por enquanto” porque, só aqui entre nós, o meu cliente já me disse várias vezes que me quer contratar. Cruzemos os dedos por um aumento chorudo.

Tal como eu, certamente há alguma área específica onde desde miúdo gostarias de trabalhar - no meu caso seria relacionado com a Fórmula 1 que, tal como em aviões, mas ao contrário dos mesmos, se baseia em princípios aerodinâmicos para se agarrarem ao chão em vez de se afastarem dele. Qual é esse teu sonho, se é que tens um em específico, e de que maneira a ALTRAN te deu conhecimentos e expertise para, um dia, alcançares?

Eu acho que a vida está sempre pronta a ensinar, desde que estejamos prontos a aprender. Nesse sentido esta experiência em Madrid, na ALTRAN foi a melhor escola que tive, não só a nível profissional mas também pessoal. Agora, se me deu conhecimentos para alcançar os meus sonhos, aspirações ou ambições, já não tenho a certeza, principalmente porque nunca fui capaz de os definir muito bem.

Sinceramente, não sei se tenho uma indústria que me interesse especialmente. Quando era miúdo queria ser veterinário e na adolescência trabalhei como segurança e barman, vá-se lá saber...Agora, já depois de formado e homem feito, talvez o que mais me chame seja a eletrificação dos transportes ou a produção de energias renováveis. Mas acho que é por ter estudado eletrotecnia que isso me despertou o interesse. Talvez também porque, como muita gente, vejo as catástrofes no horizonte e sinto alguma necessidade de participar no esforço de mitiga-las.

Adriano, obrigado pelas perguntas. Foram uma excelente oportunidade de reflexão sobre estes últimos anos!

Imagem de destaque: Foto de ecrã tirada durante a entrevista

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Created By: Adriano Miguel Rigueiro Pires
Published: 03-12-2020 18:12

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