Alexandre Gouveia | C15
Madrid | Espanha
No quilómetro 0 de Espanha situa-se a Porta do Sol. A praça com a estátua equestre de Carlos III, as fontes adornadas por um pequeno jardim, a estátua do simbólico urso e o medronheiro representante do brasão da cidade, indica o centro das entradas radiais espanholas e é considerada como uma visita turística obrigatória a qualquer viajante que se acerque de Madrid.
Com apenas um euro despendido num dos meios de transportes mais populares desta cidade é possível chegar ao Sol do aeroporto desta cidade (Sol tanto pode ser uma referência ao bairro como à estação onde se pode encontrar a Porta do Sol).
A 15 de Maio de 2011, iniciou-se o movimento 15-M, um conjunto de manifestações espontâneas e pacíficas sem precedentes, desencadeadas pelas actuais condições políticas, económicas e sociais em Espanha. Milhares de pessoas invadiram as ruas de várias cidades do país iniciando um protesto contra as medidas “anti-sociais” (assim denominadas pelos participantes) tomadas pelo governo em 2010 para resgatar os bancos da crise financeira europeia. Na noite deste mesmo dia, 150 a 250 jovens iniciaram um acampamento na Porta do Sol, que se prolongou durante um mês. Oficialmente o seu término deu-se a 12 de Junho. No entanto permaneceu um posto de informação permanente sobre o movimento, e algumas pessoas decidiram permanecer acampadas por tempo indefinido (ainda hoje podemos encontrar colchões e tendas de campismo à volta da estátua de Carlos III). As tendas do acampamento foram ocupando o espaço da praça quase na sua totalidade e algumas acabaram por receber funções específicas até ao final. Assim, no Sol podiam encontrar-se tendas de informação e logística, uma tenda cantina (“comedor”), tendas para efectuar protestos, para protecção dos animais, customização de t-shirts, de posters, e inclusive, tendas de relaxamento, de enfermaria e de biblioteca. Ao redor das próprias fontes da praça, onde se podiam ver os típicos jardins com plantas decorativas, encontravam-se pequenas plantações de vegetais e leguminosas bem conhecidas e criticadas pelo governo alemão durante os últimos meses, como inseguras para consumo.
Mesmo a planta cujo cultivo em Espanha se perfila como uma actividade instrumental, que só alcança relevância jurídico-penal ao ter como finalidade o tráfico de estupefacientes (Wikipedia), estava enraizada num local propositadamente visível ao público e suportada por um letreiro onde se podia ler a palavra “Canabis”.
Porém, para além do acontecimento histórico e destes factos únicos que presenciei, pude também observar algo muito pouco comum no mês de Março, mesmo para os padrões madrilenos. Tratou-se de um acontecimento meteorológico que nunca presenciei na minha cidade natal em Portugal. De um dia para o outro pudemos observar o solo da cidade coberto por uma camada fina de neve e durante os seguintes dias ocorreram algumas nevadas ou chuvas intensas de gotas parcialmente congeladas.
Na realidade, este tipo de chuvas tratou-se de nevadas que atravessando a capa de contaminação (observável no céu de Madrid como uma abóbada de nevoeiro cinzento (fotos) liquidificam devido ao significativo aumento da temperatura dentro desta. Pude constatar a diferença na precipitação no dia em que saí de Madrid em direcção a Barcelona. Ainda na cidade, a baixa temperatura da chuva parecia trespassar o casaco impermeável que levava, no entanto não se encontrava neve em parte alguma da cidade. Ao percorrer alguns quilómetros, saindo da orla de Madrid, notámos que a camada de neve aumentava significativamente, até que na primeira gasolineira que parámos (situada numa planície que parecia coberta por uma manta branca a perder de vista), pudemos desfrutar de algumas actividades simples e típicas de viajantes expectantes e entusiasmados por encontrarem um pouco de neve à beira da estrada.
Esta viagem a Barcelona foi particular, e não só por isto. Realizei-a no âmbito do campeonato espanhol de Hóquei Subaquático. Este desporto praticado em piscinas (com alguns elementos semelhantes ao Hóquei em patins) é relativamente recente em Portugal e vai ter o seu próximo campeonato do mundo em Coimbra a 16 de Agosto de 2011. Sou fã, praticante e federado há 2-3 anos e pude constatar que o desporto tem adeptos em Espanha há bastante mais tempo do que em Portugal. A equipa nacional de juniores ganhou o campeonato do mundo na África do Sul no ano de 2008, composta na sua totalidade por atletas do clube madrileno. Assim que cheguei a Madrid, procurei o clube e tive a oportunidade de jogar com a sua equipa em campeonatos espanhóis, em diferentes cidades. Através desta equipa, pude encontrar o Rugby Subaquático, desporto actualmente não praticado em Portugal, que possui algumas equipas em Espanha, e por isso, juntei-me à equipa madrilena e joguei num Open internacional em Madrid e num outro campeonato nacional novamente em Barcelona.
Sem dúvida que foram duas actividades subaquáticas que, apesar de estar a viver a mais de 300 Kms, quer do oceano, quer do mar, mudaram definitivamente a minha estada e vivência em Espanha de uma forma que nunca poderia ter imaginado. Por estranho que pareça, a vontade de praticar estes desportos física e psicologicamente exigentes, para além de aproximar culturas e pessoas de várias partes do mundo (visto que as equipas nacionais não são necessariamente constituídas na sua totalidade por espanhóis, aliás, nenhuma que encontrei o era), permitiu que a simples diversão ao praticá-los constituísse um dos pontos de contacto mais fortes com a maior diversidade de culturas em toda a minha experiência internacional actual.