Nona Panayotova | C15
Parque Expo
Belgrado | Sérvia
“Aujourd´hui maman est mort.” Foi o L´Étranger, de Albert Camus que me acompanhou na viagem de Lisboa para Argel. Curiosamente leio-o em Belgrado. As primeiras palavras que me ocorreram para descrever Argel foram orgânico e geração espontânea. Reina o caos na cidade, a poluição, um ar pesado e carregado. Andamos nas ruas e há uma gradação de paisagens, tudo se mistura e funde. Passamos da arquitectura de Paris, às Ramblas em Barcelona. Ao Raval. Mas também poderíamos estar em Itália. Ao mesmo tempo que o cheiro a Kebab nos faz lembrar a Turquia, o comércio recorda-nos Marrocos. E assim saltitamos nas nossas memórias e mergulhamos numa mistura de sensações. É Curioso como nós criamos a nossa própria realidade, criamos uma bolha à nossa volta e o nosso mundo. Não posso dizer que sinta falta dos altos muros de arame farpado e da vida que mudava ao sair das quatro paredes do nosso bureau na Rue Victor Hugo. Dentro de certos espaços, éramos de facto livres, mas a liberdade não é para além do infinito? Ficou um sonho por concretizar, ir ao deserto.
Não é o Miguel Sousa Tavares que diz que todos deviam ir ao deserto antes de morrerem? Porque, muitas vezes, para nos encontrarmos temos que nos perder primeiro. Quando finalmente ia começar as minhas aulas de yoga e entrar na minha vida argelina foi tempo de partir.
Após alguns dias, quando aterrei de verdade em Beo, tive consciência desta nova realidade, tão distante e tão diferente de tudo o que vi, vivi e senti na Argélia. Parecia que já me tinha esquecido de como era a vida na Europa, o que significava ter uma dita vida normal. De repente, os meus olhos enchiam-se de esplanadas cheias de mulheres, homens e crianças, de manhã à noite. Fervilha vida nesta cidade. Ando pelas ruas sentindo e vivendo esta nova realidade. Este novo mundo de descobertas. São as pessoas que fazem as cidades e não o contrário. Esta manhã, em Belgrado, sentada no trolley a caminho de mais um dia de trabalho, observo a paisagem através da janela. Quando me sentei, pensei: “Esta viagem está quase a terminar. Não há mais nada para ver”. Contudo sei que não é assim. “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.” José Saramago. Abrem-se as portas. Saio na minha paragem.