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Bulgária - Uma surpresa fora da caixa

João Anjos | C23 | Trixir AD | Sófia, Bulgária

Vista de Sófia com a montanha Vitosha em plano de fundo

"Life always begins with one step outside of your comfort zone." - Shannon L. Alder

Todos já fomos confrontados com esta expressão, ou pelos menos com uma sua adaptação, mas será que entendemos efectivamente o seu significado ou estamos antes a deixar que a nossa mente nos iluda fazendo-nos acreditar que conhecemos o mundo e que entendemos sempre como funciona?

Para mim esta é uma expressão que se tem tornado cada vez mais preponderante na minha vida e na minha rotina e que se elevou ao ponto de se tornar um mote ou lema de vida. Mas o que foi preciso para que eu a considerasse e entendesse o que significa para mim? Exactamente. Foi esse passo, foi ver, de um segundo para outro, a minha vida fora da caixa quando ouvi as palavras "tu vais para a Bulgária trabalhar seis meses".

Ainda me lembro como se fosse hoje o que senti, como me sentei na cadeira ao saber, como me precipitei em ir pesquisar onde ficava a Bulgária. E é interessante ver como a nossa cabeça começa imediatamente a encher-se de ideias feitas e de preconceitos. Preconceitos que se formam precisamente dentro da nossa zona de conforto, pois não conhecemos verdadeiramente o mundo que nos rodeia porque vemos tudo "de dentro para fora".

Passadas duas semanas ali estava eu, na Bulgária, num país de que não conhecia a cultura, os costumes, os ideais, e, pior de tudo, o idioma. Duas semanas que tinham sido uma correria, que não me tinham permitido aprofundar conhecimentos sobre o país mas que haviam dado para interiorizar uma mão cheia de preconceitos; e por isso cheguei, mala na mão e seis meses à minha frente naquela que se preparava para ser a minha maior aventura até àquele dia.

Tudo parecia desafiante, até mesmo as coisas mais básicas. Falar com alguém já não era a experiência simples, banal e convencional de despejar palavras, e passou a requerer raciocinar e explicar, pois nem toda a gente possui a mesma bagagem linguística. Ir a um restaurante deixa de significar simplesmente comer uma refeição e passa a implicar saber o que é a cozinha búlgara, o que diz o menu e depois deste esforço todo conseguir transmitir ao empregado o que se pretende comer. O caminho para o trabalho já não é convencional e tudo é novo - o bairro, os edifícios, as ruas, os passeios, as paisagens - e sentimo-nos deslocados, outsiders. Chegar ao trabalho e conhecer imensas pessoas diferentes, de várias nacionalidades e com backgrounds diferentes, dá-nos a base que precisamos para começar a assentar, mas mesmo assim não é suficiente.

Durante os primeiros meses eu tinha uma ideia predefinida da Bulgária. Seriam pessoas fechadas, que ligam à família mas não a quem vem de fora, que falam pouco ou nada de inglês e que vivem numa sociedade que não sendo economicamente forte é algo corrupta. Profissionalmente, sentia-me deslocado da minha área, numa empresa em que tudo corria de forma lógica, com mecanismos enraizados, mas que eu desconhecia completamente.

Entretanto e gradualmente comecei a compreender que na Bulgária, e principalmente em Sófia, o passatempo favorito das pessoas não é estar em bares ou em casa com os amigos, é estar nos parques. A qualquer hora do dia, em qualquer parque da cidade, o barulho de fundo é sempre de risos de crianças e de cervejas a tilintar ao som de “nazdrave” (o nosso “saúde” ao brindar com um copo). Foi só quando comecei a viver isto, a olhar para a Bulgária como uma cultura diferente da minha, que me apercebi que durante muito tempo eu tinha estado a olhar a partir de dentro da caixa. Embora eu tenha dado o passo para fora da minha zona de conforto e estivesse fora dela fisicamente, mentalmente eu não estava.

Então eu decidi que tinha de fazer o reset. Apagar tudo o que eu tinha preconcebido, deixar de estar condicionado por ideias pré-formuladas, e dar uma nova chance à aventura que estava a viver. Imediatamente eu comecei a conhecer pessoas magníficas, pessoas que não eram de todo fechadas e que falavam extremamente bem inglês, que me davam dicas, que me levavam a almoçar e a jantar, comecei a ver sorrisos na cara de quem me atendia diariamente ao almoço, e aí eu compreendi que durante todo aquele tempo quem tinha estado fechado era eu, não a Bulgária ou os búlgaros.

Também no trabalho a minha situação mudou: senti vontade de falar e expor as minha ideais, senti que era ouvido e que podia trazer uma visão diferente a cada tarefa que fazia.A língua ou idioma é, afinal, lindíssimo, o tempo é agradável e os parques continuam fenomenais. A rotina que outrora era o de casa-trabalho-casa, agora passa sempre por um parque, por um passeio, por uma cerveja ao ar livre e a beber a cultura de que disponho aqui.

Hoje em dia acordo a pensar que não podia ter tido melhor experiência. O que ao início começou por ser uma obrigação, tornou-se algo único. A convicção de que me tinha sido destinado um país de que não iria gostar muito alterou-se completamente e reverteu o sentimento de que iria ter uma experiência menos boa do que quem tinha ido para outros países. Agora olho para esta experiência como algo essencial para o crescimento pessoal, mais até do que para o crescimento profissional. Trabalhar podemos trabalhar todos os dias e do modo que quisermos, mas abrir o nosso corpo e mente só acontece se estivermos fora da nossa caixa.

Pelo que posso afirmar que um dos maiores desafios que encontrei foi o da armadilha de olhar um país, uma cidade e um povo a partir de dentro da caixa e com base em ideias feitas e preconcebidas. Desafio que ultrapassei ao compreender que era essencial viver o mundo fora da minha mente, fora do quadrado ou do meu quadro mental. Porque o mundo não existe na nossa mente, nós é que existimos nele!

Created By: Joao Manuel Neto dos Anjos
Published: 03-10-2019 11:09

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